26 de ago. de 2011

Era uma rua muito engraçada....

Era uma rua muito engraçada....
A rua não tinha calçada guia, mas tinha calçada.

Era uma sexta-feira 21 horas e pouco
Eu voltava do trabalho rindo à toa
Tinha vista a roda artística para formação de palhaços dos Doutores da Alegria
E alguns e-mails no trabalho.

A rua era a 24 de maio, local de minha moradia.
No começo da rua havia alguns mendigos preparando suas camas.
No meio da rua lá estavam as lojas, restaurantes e bares fechando.

Em frente e dentro da galeria da tal moradia havia uma baderna só:
- Churrasquinho de gato, galinha e linguiça na esquina com a Rua Dom José de Barros
- Montes de lixo e um catador de bagulho com um carrinho (?) gigante diante da Loja Besni ainda aberta (malditos capitalistas!)
- Jovens pais nordestinos e seus filhos jogando futebol
- Mães e namoradas conversando e rindo sentadas na frente das lojas fechadas
- Estudante do SENAC famintos comendo seus lanches antes de voltar para os cursos profissionalizantes
- Uma porção de gente comendo churrasquinho (de carnes estes!) e bebendo
- Outra porção de gente apenas bebendo cerveja, pinga, conhaque e até água!
- Ao fundo um grupo ouvia samba de raiz, por sinal, bem cantado e executado
- Acima, subindo as escadas rolantes, dava para ouvir o forró horroroso...

Chegando ao portão do condomínio o cheiro de porção de frango frito invadiu minhas narinas e a fome bateu.

Resisti a ela, subi ao apartamento e voltei ao meu apartamento vazio.
Percebi que aqui sou como os mendigos do início da rua:
Estou sozinho sem ninguém para cuidar de mim.... aff... que carência! hahaha

22 de ago. de 2011

A história de um livro: de Marcos Rey para um sebo!

ARQUIVO ABERTO
MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS

Presente atrasado
São Paulo, 1986

Reprodução
Capa do livro de Cheever com que Rey (quase) presenteou Aquino

MARÇAL AQUINO

ERA SEMPRE UM PRAZER imenso conversar sobre literatura com o escritor Marcos Rey (1925-1999), em especial sobre a literatura americana contemporânea, que ele conhecia a fundo. Marcos adorava os grandes: Faulkner, Hemingway, Chandler, Fitzgerald e John Dos Passos, com quem certa vez teve um encontro memorável num bar.
Mas reservava um carinho apaixonado aos menos conhecidos, nem por isso menores, caso, por exemplo, do atormentado Cornell Woolrich, o escritor de livros policiais mais adaptado pelo cinema -é dele a matriz de filmes como "Janela Indiscreta", de Hitchcock, e "A Noiva Estava de Preto", de Truffaut.
Foi Marcos Rey quem me mostrou como era injusto Horace McCoy ser admirado apenas por "Mas Não se Matam Cavalos?", pois tinha escrito outros romances tão bons ou até melhores do que o livro que lhe trouxe seus 15 minutos de fama, ao ser levado ao cinema como "A Noite dos Desesperados".
Natural, portanto, que eu recorresse a ele na tentativa de esclarecer a dúvida surgida quando foi publicada no Brasil, em 1986, a novela "Até Parece o Paraíso", de John Cheever. Afinal, aquela era ou não a primeira vez que Cheever saía por aqui? Havia controvérsias.
No posfácio da edição (Companhia das Letras), o jornalista Sérgio Augusto abordava a questão, sem elucidá-la: "Não faz muito tempo, alguém me disse que haviam traduzido entre nós o seu romance de estreia, "The Wapshot Chronicle", publicado nos EUA em 1957. Por qual editora brasileira não consegui descobrir, sequer junto a um dos maiores admiradores que Cheever conquistou nestas paragens, [...] Rubem Fonseca".
Marcos foi categórico: "'A Crônica dos Wapshot'? Esse romance saiu aqui, sim, por uma editora carioca, no final dos anos 60". O problema, explicou, é que a editora fechou logo em seguida, e o livro nem foi distribuído direito. Com sua habitual generosidade, acrescentou: "Tenho um exemplar. Passe lá em casa qualquer hora que te dou de presente". E finalizou: "De qualquer forma, não é grande coisa". Como muitos críticos, ele achava que John Cheever era melhor contista do que romancista.
É claro que, na primeira oportunidade em que estive no apartamento dele, cobrei a oferta. Marcos me olhou com pesar. Contou que emprestara o livro ao irmão, o também escritor Mario Donato, morto meses antes. Acontece que a viúva tinha vendido a biblioteca de Mario -e junto se foi o raro exemplar. Deve ter sido minha cara de incrédulo que o levou a garantir: "Acredite: o livro existe, comprei num sebo.
Lembro até que tem o nome de uma mulher na folha de rosto. O autógrafo da primeira dona".
Acho que foi ali que "A Crônica dos Wapshot" começou a assumir, para mim, névoas de lenda.
O tempo passou, outras obras de Cheever foram lançadas no Brasil, Marcos Rey se foi. Continuei com o costume de perguntar pelo romance em todos os sebos em que entrava. Nunca consegui confirmar que tivesse saído por aqui.
Até que um dia, muitos anos depois, recebi uma ligação de um velho alfarrabista do Centro, que me informou ter encontrado "aquele" livro que eu tanto procurava. Na verdade, nem me lembrava mais do assunto. "'A Crônica dos Wapshot'", o homem esclareceu. "Um exemplar em excelente estado. Parece novo", ele acrescentou, como que me preparando para o preço absurdo que iria cobrar. Em sua retórica de convencimento, o alfarrabista chegou a mencionar alguém mais interessado na obra.
Interrompi o que estava fazendo e fui até a loja. Mas só acreditei quando peguei e manuseei o livro.
Sim, ele existia. E estava mesmo em ótimo estado. Nem preciso dizer que, na folha de rosto, encontrei o nome de uma mulher. Era o exemplar que fora do grande Marcos Rey. Um presente que me dera e que, por essas tramas tão fabulosas do destino, levou anos até chegar às minhas mãos.


Roubado da Folha de São Paulo de domingo, dia 21/08/2011

21 de ago. de 2011

Voar, navegar e nas trevas ver a luz

Para onde poderia fugir da tua presença?
Se eu subir aos céus, lá estas;
se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás.
Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar,
mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá.
Mesmo que eu diga que as trevas me encobrirão, e que a luz se tornará noite ao meu redor,
verei que nem as trevas são escuras para ti.
A noite brilhará como o dia, pois para ti as trevas são luz.
Salmo 139: 7b-12


Engraçado como algumas coisas, no caso agora um texto, que nos parecem já conhecidos, quando reencontrados e reanalisados se tornam uma novidade. Causou-me estranhamento, e porque não um maravilhamento, texto tão poético.
Alguém pode me dizer que graças a tecnologia de hoje qualquer um pode subir ao céu, ao mais alto céu, ou mesmo chegar às extremidades do mar. Também podemos enxergar graças a aparelhos especiais tudo como luz em meio à escuridão.
Mas me maravilho mesmo com a visão ou inspiração que fez escreverem tal texto vislumbrando coisas para o período impossíveis e quero imaginar e poder ir a tais lugares sem tanta tecnologia e sem tanta magia, apenas navegando, andando ou usando a imaginação.



18 de ago. de 2011

Sérgio Vaz: Literatura, pão e poesia

A periferia nunca esteve tão violenta, pelas manhãs é comum ver, nos ônibus, homens e mulheres segurando armas de até 400 páginas. Jovens traficando contos, adultos, romances. Os mais desesperados, cheirando crônicas sem parar. Outro dia um cara enrolou um soneto bem na frente da minha filha. Dei-lhe um acróstico bem forte na cara. Ficou a rima quebrada por uma semana.
A criançada está muito louca de história infantil. Umas já estão tão viciadas, que, apesar de tudo e de todos, querem ir para as universidades. Viu, quem mandou esconder ela da gente, agora a gente quer tudo de uma vez.

Trecho de artigo do poeta e fundador da Cooperifa na revista Caros Amigos de agosto de 2011.
Vale a pena ler o artigo inteiro, vá comprar a revista!

W.

14 de ago. de 2011

Emendas parlamentares e corrupção

Nem sempre concordo com o Jânio, mas sua análise deixa claro um dos problemas a enfrentar para diminuir a corrupção. Quem vai carregar essa arca e diminuir o poder excessivo da corja q vive na Câmara, Senado, Executivo e Judiciário?
Só o povo acordando e cobrando!
JANIO DE FREITAS
Emendas sem emenda




Qualquer correção nesse sistema dependeria de seus próprios beneficiários no Congresso


NADA A FAZER - eis a forçosa constatação a respeito de certo tipo de corrupção alta em valor e em localização, e só incomodada por eventualidades raras e superficiais. É o caso dos sempre crescentes bilhões que deputados e senadores dividem entre múltiplas destinações à escolha de cada um, sob o rótulo de "emendas parlamentares" ao Orçamento nacional.
O poder de corrupção dessas emendas, dentro e fora da Câmara e do Senado, ficou demonstrado, há mais de 20 anos, no maior de todos os escândalos na história parlamentar brasileira, batizado de "Anões do Orçamento". Era a descoberta de bandalheiras com o dinheiro de emendas em proveito dos próprios proponentes do montante e da aparente destinação. Com bastante propriedade, a descoberta foi facilitada pelas revelações de um criminoso, assassino, que fora eficiente assessor da Comissão de Orçamento.
As consequências da CPI foram os afastamentos, por cassação de mandato e por vontade própria, de uns poucos deputados, a partir de um relatório suspeitamente caótico, feito da noite para o dia. E do qual vários implicados foram salvos por simples pedido, como se deu com Geddel Vieira Lima, que veio a ser ministro de Lula, salvo da degola naquela ocasião a pedido de Luiz Eduardo Magalhães. A evidência da roubalheira de dinheiro público não foi suficiente para levar seus beneficiários à cadeia. Nem para devolver o embolsado. Mas o pior nem estava aí. Foi a inconsequência para as regras das emendas, preservadas na vulnerabilidade obviamente mal intencionada.
Agora, a desconhecida deputada peemedebista Fátima Pelaes aparece como autora da destinação, por emendas ao Orçamento, de mais de R$ 4,4 milhões para formação de 1.900 servidores em turismo no Amapá, onde não há turismo. É certo que o dinheiro não chegou à finalidade alegada. Como é sabido que a deputada se vê acusada de receber boa parte do dinheiro de suas emendas, entregue pelos pretensos prestadores do serviço inexistente, pago com o dinheiro da emenda. Fátima Pelaes nega, como de praxe, e de fato a acusação ainda não foi investigada, mas nem por isso fica diminuída a utilidade do caso como exemplo.
Não há, mesmo, exigência alguma para fundamentar uma emenda. Tanto faz se o parlamentar propõe verba para construção de uma ponte, de uma estrada, ou meia dúzia de milhões a pretexto de formar um punhado de técnicos em lavagem de copos. Concedida a verba, são ínfimas as probabilidades de que seu destino verdadeiro e completo fique ao alcance de alguma fiscalização. Idem quanto à possível partilha.
Mesmo a utilidade reconhecida de uma emenda é incapaz de indicar a correção de seu uso. As empreiteiras de obras públicas, por exemplo, exercem grande influência na apresentação de emendas parlamentares. Nem seria preciso dizer que os autores das emendas comandadas vão receber parte das verbas liberadas para as obras, mesmo que úteis. Assim também com inúmeras outras finalidades.
A tão falada insubordinação da "base aliada" é uma onda devida, sobretudo, à retenção de verbas pretendidas por parlamentares para suas emendas. Da parte do governo, há o propalado esforço para contenção de gastos, contra a inflação. Entre, porém, a inflação e os cuidados com a crise internacional, de um lado, e de outro a verba da sua emenda, a escolha do parlamentar até antecede o dilema.
Diante disso, o que faz o incumbido de conter, em nome do governo, represálias nas votações da Câmara e do Senado? Ministra de tal tarefa, Ideli Salvatti reivindica R$ 1 bilhão para emendas de deputados e senadores. Alimenta, é a regra, o sistema que se volta contra o governo e, sobretudo, contra a moralidade das relações institucionais e das práticas políticas.
Emendas, por si mesmas, são instrumento para servir a necessidades localizadas da população, por intermédio do serviço dos parlamentares ao seu eleitorado. Na prática, sem dúvida há emendas assim, na Câmara e no Senado, mas é para lá de duvidoso que formem, ao menos, um número razoável. A emenda turística do Amapá não tem originalidade alguma no conjunto das emendas. Mas não há o que fazer a respeito: qualquer correção nesse sistema dependeria de deliberação dos próprios beneficiários no Congresso. A Constituição Cidadã não prevê meio algum que permita à sociedade sobrepor-se ao poder dos deputados e senadores em privilegiar-se, mesmo que no pior sentido.

12 de ago. de 2011

Passeio VIP: a velha São Paulo resiste!

Sexta-feira, dia de comemoração!

Ainda no trabalho consigo não sucumbir ao ficar mais uma noite lendo e respondendo e-mails antes da chegada do final de semana. Saio e vou com um colega de trabalho atrás de hambúrguer. Passamos no Shopping Light e nada. Lembro-me do já famoso Sujinho Burguer e pegamos um ônibus até o meio da Rua da Consolação. Que maravilha é comer ali. Quando ia utilizar o cartão de crédito para pagar, sou lembrado que a casa só aceita pagamento em dinheiro. E lá vou eu atrás de um Itaú ou Banco do Brasil. Quando se quer, os bancos malditos não aparecem!

Chego em casa e minha irmã pede minha ajuda para levar umas mochilas pesadas até o ponto de ônibus. Na saída ela lembra que quer comer um CBO (novo lanche do Mc Donalds). Aceito acompanhá-la e lá vamos.
Na esquina da rua 24 de maio com a avenida Ipiranga nos deparamos com um garoto de uns 12 anos encostado em uma porta de aço choramingando: eu não quero dinheiro não... não... quero comer...
Não consigo passar sem parar e pergunto o que aconteceu. Ele chora: pedi para comer e a mulher pediu para ir procurar minha mãe... mas não tenho mãe, não tenho pai, não tenho ninguém! Ao final o levamos até o Mc lotado! Parece-me que as pessoas andam cheias de grana.

Já no ponto de ônibus, esperamos quase 20 minutos um ônibus, deixo minha irmã e me volto para retornar ao apartamento. Sinto-me pesado e decido dar uma volta no quarteirão.

A volta ao quarteirão vira um longo passeio VIP!

Atravesso a São João com a Ipiranga e me deparo com mais um local lotado. É o Bar Brahma.
Avanço e antes de chegar na Rio Branco vejo o garoto comendo com outros em um beco. É o primeiro beco  dos resistentes do Crack.
Entro na Rio Branco e sinto o cheiro de maconha pela primeira vez. Viro pela Vitória e sigo pelas a essa hora desertas Santa Efigênia, Andradas e Triunfo.

Ao chegar próximo ao Centro Tom Jobim de música noto mais bares lotados com gente moderninha e logo em frente à Estação Pinacoteca vejo mais um foco de resistência do Crack com umas 20 pessoas fumando e negociando os blocos. Olho para o belo prédio da Estação Pinacoteca e leio um banner: Memorial da Resistência. Tudo a ver....

Avanço pela calçada da Estação Pinacoteca e chego à Sala São Paulo, como sempre impávida e bela, com garotos a jogar futebol e outros apenas a correr e namorar. Também há casais bêbados discutindo logo ali.

Em volta da praça, diante da Sala SP há cerca de 20 taxis aguardando o final do espetáculo.
Mas o que me chama a atenção é o espetáculo do outro lado da rua. Mais uma vez me espanto, mais uma vez vejo centenas de seres humanos e vários focos de fogo e luz. É a luz do Crack iluminando os que vivem nas trevas. Sinto medo e penso em retroceder, mas como sou um grande insensato adentro pela porta larga da rua.....

Uma parada para uma explicação: depois de sair do Mc Donalds já estava sem um tostão, sem carteira, sem celular, apenas com a chave de casa e o RG, além de estar utilizando roupas velhas. Devia me parecer com um deles, sinceramente.

Ao entrar na rua Helvétia, atual local de concentração dos exércitos da resistência do Crack sinto vários odores característicos: de maconha, de suor, de cocô e mijo que até sinto vontade de vomitar, mas continuo mesmo assim.

O velho e nobre bairro dos Campos Elíseos está em festa: um motoqueiro burguês entra com tudo e compra seu bloco; um grupo toca samba batendo em cestos de lixo; meninos e meninas encostados nos muros cheiram cola, fumam e trocam cigarros; alguns que me parecem mais sãos ficam com dinheiro na mão; evangélicos gritam avisando que chegou a sopa; três ou quatro bares com suas estantes repletas de bebidas alcóolicas tocam funk ou forró; um homem e duas mulheres empurram um carrinho de mão com um colhão de casal.....

Depois de andar dois quarteirões caóticos chego ao Largo do Sagrado Coração de Jesus e a bela igreja de mesmo nome. Ao alto, Jesus e seu coração vermelho ilumina a escuridão da noite. Se não fosse uma escultura eu poderia dizer ou ler que: JESUS CHOROU. Incomodado com a situação volto para a avenida Rio Branco passando pelo Terminal Rodoviário Princesa Isabel e pela fedorenta praça Duque de Caxias.

Ao atravessar a avenida Duque de Caxias e cruzar com a rua General Osório, mais uma cena de resistência: vejo umas cinco ou seis mulheres pelas calçadas. A primeira delas se aproxima e oferece: vem me conhecer, vem... Quanto? Pergunto. R$30,00 completinho amor.... Desejo boa noite e continuo pela avenida Rio Branco....

Me sentindo cansado, triste e arrasado não vejo a hora de chegar em casa, mas ainda tinha que passar pelo trecho da Rio Branco repleta de nigerianos a beber, o trecho da rua Aurora com migrantes nordestinos a beber e pelo Bar Brahma cheio de burgueses e estrangeiros a beber...

2 de ago. de 2011

Coração de estrelas

Hoje encontrei mais um pedaço de coração.


Pisado, solitário, estava caído no chão.


Mas não ligo não.


Sempre os atiro longe pela janela.




Imagino que um dia você minha hoje desconhecida e querida amada.


Desesperada e solitária olhará para o céu e verá pequenas estrelas a se juntar.


Ali encontrará a constelação do meu coração.


Ela te guiará até o fim dos meus sonhos.


Pois, acordados, nos encontraremos e juntos sonharemos.




Essas poesias melosas de antigamente sempre sonham em retornar.....
William - 02/08/2011 - 00:00

30 de jul. de 2011

Augusto de Campos x Ferreira Gullar

Sobre a gula

Poeta responde à coluna em que Ferreira Gullar afirma tê-lo ouvido criticar Oswald de Andrade em 1954

AUGUSTO DE CAMPOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

O poeta Ferreira Gullar continua guloso. E mais desmemoriado do que nunca.
É verdade que já se penitenciou. No artigo "Errar é comigo mesmo" (26/7/2009), confessou-se: "Na primeira crônica, aqui publicada no dia 2 de janeiro de 2005, afirmei, em alto e bom som, que esqueço tudo o que leio e tendo a inventar de minha cabeça o que os romances não contam e os ensaios não dizem.
Que crédito pode merecer um sujeito tão desligado que chega a mijar na lata de lixo pensando que é o vaso sanitário? Era inevitável acontecer o que tem acontecido: cartas e cartas de leitores apontando os erros que cometo, informações erradas, dados equivocados. São tantos que já nem consigo lembrar, e não os lembraria ainda que fossem poucos, porque lembrar não é o meu forte. (...) E tem sempre aquele leitor chatinho que aproveita para nos dar um puxão de orelha. A minha, aliás, já está ardendo".
Lamento seus problemas neo-urológicos e auriculares. Mas ele esqueceu de dizer que sua cabeça só funciona para engrandecer-se. Lembra que, gênio precoce, foi campeão de bolinha-de-gude. E vive trocando as bolas, sempre em proveito próprio. 
Gullar inventou uma conversa de bar de mais de 50 anos para tentar desmerecer o meu apreço a Oswald de Andrade, os muitos estudos que publiquei e, por tabela, os de Décio Pignatari e Haroldo de Campos contra nenhum trabalho seu, que sobre Oswald tem um poema de circunstância sacado do fundo da gaveta.
O encontro em Spaghettilândia jamais ocorreu. No Rio eu só como espaguete recomendado por amigos.
Conheci-o em 1955 em seu apartamento levado por Oliveira Bastos. Como disse Manuel Bandeira, fui puxá-lo pelos cabelos. 
Neo-Nero, anunciara que não faria mais poemas. Mostrei-lhe os nossos e ele se saiu com um formigueiro trapalhônico... Quando a exposição de Arte Concreta (dezembro de 1956) foi para o Rio (em fevereiro de 1957), ele, que para aqui mandara cinco cartazetes formigulosos, encheu uma sala de formigas (13 cartazes de 1 x 2 m). Numa coletiva de 26 artistas em que a regra era que cada qual exporia até quatro trabalhos! Haja ética! Não adiantou.
O formicida do Tempo engoliu o guloso formigamento. Eu fora ao Rio convidá-lo generosamente para participar da mostra. Vi-o mais quatro ou cinco vezes de passagem. Uma, na casa de Mário Pedrosa: conversei o tempo todo com Mário Faustino, que era culto e civil, o oposto de Gullar, monoglota e ególatra.
Haroldo o viu uma vez, em 1957. Gullar só falava em Murilo Mendes e nos surrealistas. Na fase neostalinista, proclamou que quem estava certo era Mário de Andrade, não Oswald. Esqueceu disso também?
Conheci Oswald em 1949, visitei-o muitas vezes, e estive com Décio e Haroldo entre os poucos que o saudaram como "o mais jovem" no "Telefonema a Oswald" (Jornal de São Paulo, 15/1/1950). Décio nos representou no "banquete antropofágico" em homenagem ao poeta " sexappealgenário" no Automóvel Clube (1950). 
Em 1954, Décio propôs a peça "O Rei da Vela" no seu Teatro de Cartilha. Nos manifestos da poesia concreta, Oswald é destaque. E, no "Diário Popular" (12/12/1956), depusemos Haroldo e eu: "Contra a reação sufocante, lutou quase sozinha a obra de Oswald de Andrade, que sofre, de há muito, um injusto e caviloso processo de olvido sob a pecha de 'clownismo' futurista. Seus poemas ('Poesias Reunidas O. Andrade'), seus romances-invenções 'Serafim Ponte Grande' e 'Memórias Sentimentais de João Miramar' (de tiragens há muito esgotadas, para não falar de seus trabalhos esparsos ou inéditos), que ainda hoje, por sua inexorável ousadia, continuam a apavorar os editores, são uma raridade no desolado panorama artístico brasileiro. A violenta compressão a que Oswald submete o poema, atingindo sínteses diretas, propõe um problema de funcionalidade orgânica que causa espécie em confronto com o vício retórico nacional".
Ninguém precisou de Gullar e sua vã gloríola.
A sua grande contribuição: descobriu em Oswald duas qualidades, humor e frescor. Nenhuma tem Gullar. Guloso e ressentido, diz que a poesia concreta é tolice, mas quer ser seu precursor... O "Lance de Dados", de Mallarmé? "Pensou" em traduzir... Só que foi Haroldo o tradutor.
Sousândrade é chato porque foi descoberto por nós, mas ele já sabia que existia. 
O papo furado sobre Oswald é porque nós o resgatamos. Décio e Haroldo não são poetas -explode. Eu seria, mas fui corrompido pelos meus companheiros. Inglório furor competitivo. Frágil casquinha do trabalho alheio.
Por que não sai da casquinha e entra na Academia Brasileira de Letras onde o espera o confrade Sarney? Afinal, inventou a neomemória e o neoacademismo...


AUGUSTO DE CAMPOS, 80, é poeta, ensaísta e tradutor, autor de "Poesia Antipoesia Antropofagia" (Cortez e Moraes, 1978), "Despoesia" (Perspectiva, 1994), "Não" (Perspectiva, 2003), entre outros.




Literatura 
A propósito do texto "Redescoberta de Oswald de Andrade", de Ferreira Gullar (Ilustrada, 17/7), em que o cronista menciona fictício encontro comigo, que teria ocorrido há mais de meio século, peço vênia para lembrar as palavras do próprio memorialista em crônica anterior, de 26 de junho de 2009, na Ilustrada, sob o título "Errar é comigo mesmo": "Ninguém pode dizer que não avisei.
Na primeira crônica, aqui publicada no dia 2 de janeiro de 2005, afirmei, em alto e bom som, que esqueço tudo o que leio e tendo a inventar de minha cabeça o que os romances não contam e os ensaios não dizem. Que crédito pode merecer um sujeito tão desligado que chega a mijar na lata de lixo pensando que é o vaso sanitário?".
AUGUSTO DE CAMPOS, poeta (São Paulo, SP) 

RESPOSTA DO COLUNISTA FERREIRA GULLAR - Fiquei estarrecido ao ler a mensagem de Augusto de Campos a propósito de uma crônica em que contei um almoço nosso, no Rio, em 1955, quando falamos, entre outras coisas, de Oswald de Andrade. Como sua opinião sobre Oswald era então negativa, ele agora, por não se atrever a negá-la, nega o próprio encontro. Eu teria inventado tudo... Muita gente me conhece e sabe que, distraído eu sou, mas mentiroso, não. Em compensação, para minha surpresa, o Augusto, que sempre tive como um sujeito honesto, ainda que sectário, mente agora, negando um encontro que ele sabe que ocorreu.
Ou será que, como eu, ele deu para esquecer de tudo e também mijar na lata de lixo?



FERREIRA GULLAR 

Redescoberta de Oswald de Andrade 


Além do humor, o que percebi de melhor em Oswald de Andrade foi frescor da linguagem


CREIO QUE foi em 1953 que eu, ao entrar na livraria da editora José Olympio, então na rua do Ouvidor, deparei-me, sobre um balcão, com vários exemplares do livro "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade, a preço de liquidação.
Eu, que o conhecia de nome de uns raros poemas, comprei um exemplar e, naquele mesmo dia, o li dando gargalhadas. É certo que sempre tive simpatia pelos irreverentes, talvez porque da irreverência resulte uma ruptura com a mesmice.
Essa releitura foi para mim uma revelação. Oswald ainda estava vivo, mas quase ninguém tomava conhecimento de sua literatura. Agora ele acaba de ser homenageado pela Festa Literária de Paraty.
Naquela semana mesmo, na casa de Mário Pedrosa, falei de Oswald, da boa surpresa que tive ao lê-lo. Mário sorria satisfeito, admirador que era da literatura de Oswald e de seu espírito irreverente.
Contou-me algumas histórias engraçadas que sabia dele. Pegou da estante um exemplar de "Pau Brasil". Era a primeira edição, com a bandeira brasileira desenhada na capa. "Você vai gostar", disse-me ele, ao me entregar o livro. E na verdade o li com prazer e surpresa, encantado com a maneira jovem que ele tinha de dizer as coisas.
Além do humor, o que percebi de melhor em sua literatura foi o frescor da linguagem, diferente da de outros poetas brasileiros modernos, mesmo os que vieram depois dele:
"Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados."
Falei do livro com Oliveira Bastos, então jovem crítico literário, que também decidiu voltar-se para Oswald de Andrade. E se tornou seu amigo. Naquele mesmo ano, estava eu em casa de Amelinha, minha namorada na época, no dia em que completava 23 anos de idade, quando toca a campainha da porta e surge um homem grande, de olhos verdes enormes, em mangas de camisa. Não acreditei no que via: ali estava Oswald de Andrade, que me abraçou e disse que vinha me cumprimentar pelo meu aniversário.
Com ele, rindo de meu espanto, entrou Bastos, que tramara tudo e lhe tinha levado uma cópia de "A Luta Corporal", ainda inédito. Isso ouvi do próprio Oswald, que afirmou, exagerado como era: "Com você, renasce a poesia brasileira".
E, como se não bastasse, acrescentou que ia dar um curso de literatura brasileira na Itália e a última aula seria sobre minha poesia. Melhor presente de aniversário não podia haver. Ele me deu então um livro com suas peças "A Morta" e "O Rei da Vela", editado já havia algum tempo, que guardo comigo até hoje.
O Réveillon daquele ano passamos os três -Bastos, Amelinha e eu- na sua casa em São Paulo, em companhia dele e Maria Antonieta d'Alkmin, sua mulher e musa. Já estava doente e trazia uma pequena medalha de Nossa Senhora, presa à blusa do pijama. Mas ele não é ateu?, perguntei a mim mesmo, achando graça. Em outubro daquele ano, morreria. Escrevi, então, um poema, que terminava assim: "Fez sol o dia todo em Ipanema. / Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo, hoje, dia 24 de outubro de 1954".
Naquele ano, eu havia publicado "A Luta Corporal", em cujos poemas finais desintegrava a linguagem, o que chamou a atenção de três jovens poetas paulistas -Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari-, que me procuraram.
Augusto veio encontrar-me, no Rio, quando conversamos sobre as questões que ele levantou acerca da poesia brasileira. Foi num almoço na Spaghettilândia, na Cinelândia.
Falou-me do propósito do grupo deles de renovar a poesia brasileira e foi por essa razão que me procuraram, já que meu livro rompia com "a poesia sentada", na expressão deles. E então citou os poetas brasileiros que, no seu entender, representavam um caminho para a renovação: Mário, Drummond, Cabral. Oswald de Andrade estava fora.
Estranhei e ele então respondeu que não se podia levá-lo a sério, por considerá-lo um irresponsável. Respondi que, irresponsável ou não, sua poesia era inovadora, sua linguagem tinha um gosto de folha verde. Ele ficou de relê-lo e da releitura que fizeram resultou a redescoberta de Oswald de Andrade. Por tudo isso, fiquei feliz ao vê-lo homenageado agora pela Flip 2011.

23 de jul. de 2011

A jogada dos planos de saúde

Paulada no SUS

LIGIA BAHIA e MÁRIO SCHEFFER




Ajudar empresas lucrativas que não cumprem seu papel já é inversão perversa; celebrar contratos para atender aos clientes de planos é iniquidade

É uma bordoada a recente regulamentação da lei paulista que permite a venda para planos de saúde de até 25% da capacidade dos hospitais públicos gerenciados por organizações sociais.
Desde o famigerado Plano de Atendimento à Saúde (PAS), criado por Maluf, uma política de governo não atingia assim, de chofre, o Sistema Único de Saúde (SUS).
Reprise do mesmo drama, abrem-se as torneiras que irrigam empresas privadas com dinheiro público. O PAS ensinou que a gambiarra de governantes, baseada em legislação questionável e financiamento improvisado, não resiste à próxima eleição, mas enriquece alguns à custa do calote no SUS.
Para justificar o ardil, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo identificou que 18% dos pacientes atendidos em hospitais públicos têm plano privado. Por que até hoje não viabilizou essa cobrança por meio da Agência Nacional de Saúde Suplementar?
A falsa alegação de que a lei federal do ressarcimento não é extensiva às organizações sociais e o suposto efeito Robin Hood (tirar dos planos para melhorar o SUS) escondem interesses cruzados.
Uma mão lava a outra: as organizações sociais precisam de dinheiro novo para manter sua vitrine assistencial, e os planos e seguros de saúde querem ostentar hospitais públicos de alta complexidade em suas redes credenciadas.
Há um negócio bilionário em ascensão, de planos populares a menos de R$ 100 por mês, que só é viável com o uso da capacidade instalada do SUS. Os planos de saúde já vivem de subsídios públicos.
Eles ajudam a eleger políticos, lucram com a renúncia fiscal, com a isenção de impostos e com repasses do erário para convênios médicos do funcionalismo.
Ao mesmo tempo, empurram para as contas do SUS idosos e doentes -que não têm condição de arcar com o aumento das mensalidades decorrentes do passar da idade ou cujo acesso é vetado a tratamentos mais caros.
Uma em cada cinco pessoas com câncer vinculadas a planos de saúde são jogadas ao mar e buscam socorro no SUS.
Ajudar empresas altamente lucrativas que não cumprem seu papel já é uma inversão perversa. Celebrar contratos para o atendimento aos clientes de planos, que pensam ter escapado das alegadas agruras da rede pública, constitui requinte de iniquidade.
A aventura em curso nada tem a ver com o ressarcimento, que prevê critérios de justiça contábil para atendimentos eventuais e limitados. O que está em jogo, já testado em hospitais universitários do Estado, é a expansão da fila dupla, verdadeiro apartheid que dá acesso privilegiado a quem tem plano e reserva a porta dos fundos para a "gente diferenciada" do SUS. Não dá para transigir com essa distorção escandalosa.


LIGIA BAHIA, doutora em saúde pública, é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
MÁRIO SCHEFFER, doutor em ciências, é pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ambos são autores do livro "Planos e Seguros de Saúde: O que Todos Devem Saber sobre a Assistência Médica Suplementar no Brasil" (Editora Unesp).

20 de jul. de 2011

Corrupção: Por que não reagimos?

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Por que não reagimos?

SÃO PAULO - Por que os brasileiros não reagem à corrupção? Por que a indignação resulta apenas numa uma carta enviada à Redação ou numa coluna de jornal? Por que ela não se transforma em revolta, não mobiliza as pessoas, não toma as ruas? Por que tudo, no Brasil, termina em Carnaval ou em resmungo?
A pergunta inicial não foi feita por um brasileiro -o que é sintomático. Foi Juan Arias, correspondente do jornal "El País" no Brasil, quem a formulou num artigo recente. "
Es que los brasileños no saben reaccionar frente a la hipocresía y falta de ética de muchos de los que les gobiernan?". Y entonces???
Não existe resposta simples aqui. Em primeiro lugar, a vida de milhões de brasileiros melhorou nos últimos anos, mesmo sob intensa corrupção, e apesar dela. Ninguém que leve o materialismo a sério pode desconsiderar esse dado básico.
Além disso, o PT, na prática, estatizou os movimentos sociais. Da UNE ao MST, passando pelas centrais sindicais, todos recebem dinheiro do governo. Foram aliciados. São entusiastas e sócios do poder, coniventes com os desmandos porque têm interesses a preservar, como o PR de Valdemar e Pagot.
Há ainda um terceiro aspecto, menos óbvio, que leva muita gente progressista a se encolher diante da corrupção. É a ideia introjetada de que qualquer movimento político ou mobilização contra a bandalha acaba sendo uma reedição do espírito udenista, coisa da direita ou que serve a seus propósitos. O lulismo soube explorar esse enredo, como se estivesse em jogo no mensalão uma disputa entre Vargas (o pai dos pobres nacionalista) e Lacerda (o moralista a serviço das elites).
Lula nunca moveu uma palha para mudar o sistema político podre que o beneficiou. Com a corrupção sob seu nariz, preferiu posar de vítima da imprensa golpista. Enquanto isso, seus aliados, no PT ou à direita, golpeavam os cofres da Viúva, exatamente como sempre neste país. Está aí a gangue dos Transportes, na estrada há 10 anos.



Retirado da Folha de S. Paulo de 20/07/2011.