12 de ago de 2011

Passeio VIP: a velha São Paulo resiste!

Sexta-feira, dia de comemoração!

Ainda no trabalho consigo não sucumbir ao ficar mais uma noite lendo e respondendo e-mails antes da chegada do final de semana. Saio e vou com um colega de trabalho atrás de hambúrguer. Passamos no Shopping Light e nada. Lembro-me do já famoso Sujinho Burguer e pegamos um ônibus até o meio da Rua da Consolação. Que maravilha é comer ali. Quando ia utilizar o cartão de crédito para pagar, sou lembrado que a casa só aceita pagamento em dinheiro. E lá vou eu atrás de um Itaú ou Banco do Brasil. Quando se quer, os bancos malditos não aparecem!

Chego em casa e minha irmã pede minha ajuda para levar umas mochilas pesadas até o ponto de ônibus. Na saída ela lembra que quer comer um CBO (novo lanche do Mc Donalds). Aceito acompanhá-la e lá vamos.
Na esquina da rua 24 de maio com a avenida Ipiranga nos deparamos com um garoto de uns 12 anos encostado em uma porta de aço choramingando: eu não quero dinheiro não... não... quero comer...
Não consigo passar sem parar e pergunto o que aconteceu. Ele chora: pedi para comer e a mulher pediu para ir procurar minha mãe... mas não tenho mãe, não tenho pai, não tenho ninguém! Ao final o levamos até o Mc lotado! Parece-me que as pessoas andam cheias de grana.

Já no ponto de ônibus, esperamos quase 20 minutos um ônibus, deixo minha irmã e me volto para retornar ao apartamento. Sinto-me pesado e decido dar uma volta no quarteirão.

A volta ao quarteirão vira um longo passeio VIP!

Atravesso a São João com a Ipiranga e me deparo com mais um local lotado. É o Bar Brahma.
Avanço e antes de chegar na Rio Branco vejo o garoto comendo com outros em um beco. É o primeiro beco  dos resistentes do Crack.
Entro na Rio Branco e sinto o cheiro de maconha pela primeira vez. Viro pela Vitória e sigo pelas a essa hora desertas Santa Efigênia, Andradas e Triunfo.

Ao chegar próximo ao Centro Tom Jobim de música noto mais bares lotados com gente moderninha e logo em frente à Estação Pinacoteca vejo mais um foco de resistência do Crack com umas 20 pessoas fumando e negociando os blocos. Olho para o belo prédio da Estação Pinacoteca e leio um banner: Memorial da Resistência. Tudo a ver....

Avanço pela calçada da Estação Pinacoteca e chego à Sala São Paulo, como sempre impávida e bela, com garotos a jogar futebol e outros apenas a correr e namorar. Também há casais bêbados discutindo logo ali.

Em volta da praça, diante da Sala SP há cerca de 20 taxis aguardando o final do espetáculo.
Mas o que me chama a atenção é o espetáculo do outro lado da rua. Mais uma vez me espanto, mais uma vez vejo centenas de seres humanos e vários focos de fogo e luz. É a luz do Crack iluminando os que vivem nas trevas. Sinto medo e penso em retroceder, mas como sou um grande insensato adentro pela porta larga da rua.....

Uma parada para uma explicação: depois de sair do Mc Donalds já estava sem um tostão, sem carteira, sem celular, apenas com a chave de casa e o RG, além de estar utilizando roupas velhas. Devia me parecer com um deles, sinceramente.

Ao entrar na rua Helvétia, atual local de concentração dos exércitos da resistência do Crack sinto vários odores característicos: de maconha, de suor, de cocô e mijo que até sinto vontade de vomitar, mas continuo mesmo assim.

O velho e nobre bairro dos Campos Elíseos está em festa: um motoqueiro burguês entra com tudo e compra seu bloco; um grupo toca samba batendo em cestos de lixo; meninos e meninas encostados nos muros cheiram cola, fumam e trocam cigarros; alguns que me parecem mais sãos ficam com dinheiro na mão; evangélicos gritam avisando que chegou a sopa; três ou quatro bares com suas estantes repletas de bebidas alcóolicas tocam funk ou forró; um homem e duas mulheres empurram um carrinho de mão com um colhão de casal.....

Depois de andar dois quarteirões caóticos chego ao Largo do Sagrado Coração de Jesus e a bela igreja de mesmo nome. Ao alto, Jesus e seu coração vermelho ilumina a escuridão da noite. Se não fosse uma escultura eu poderia dizer ou ler que: JESUS CHOROU. Incomodado com a situação volto para a avenida Rio Branco passando pelo Terminal Rodoviário Princesa Isabel e pela fedorenta praça Duque de Caxias.

Ao atravessar a avenida Duque de Caxias e cruzar com a rua General Osório, mais uma cena de resistência: vejo umas cinco ou seis mulheres pelas calçadas. A primeira delas se aproxima e oferece: vem me conhecer, vem... Quanto? Pergunto. R$30,00 completinho amor.... Desejo boa noite e continuo pela avenida Rio Branco....

Me sentindo cansado, triste e arrasado não vejo a hora de chegar em casa, mas ainda tinha que passar pelo trecho da Rio Branco repleta de nigerianos a beber, o trecho da rua Aurora com migrantes nordestinos a beber e pelo Bar Brahma cheio de burgueses e estrangeiros a beber...

2 comentários:

Dri disse...

Uma triste realidade que não conheço de perto.. ótimo texto. Bom fds.

Manu disse...

Adorei, W. adoro seus textos das suas caminhadas, quando leio parece que estou passando pelos mesmos lugares e mato minha vontade de andar sozinha por estes lados tb...rs