4 de jun. de 2013

Mulheres do Ceasa em poesia

Uma poesia pode trazer à mente a lembrança das idas aos Domingos à feira do CEASA (CEAGESP - Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo).

O que me vem à lembrança são as mulheres que aguardam o fim da feira ou as mulheres que no meio do tumulto ficam pedindo um trocado para comprar frutas, verduras ou legumes. Em minha lembrança não houve uma única vez que não vi tal cena, mesmo eu sendo costumeiramente obrigado a ir até lá a cada duas semanas. É o meu martírio dominical quinzenal.

Essas mulheres, algumas vezes a sós, ou acompanhadas de seus filhos ranhentos e mulambentos, se comportam como na poesia da Angélica Freitas que tirei de seu provocativo e também sensível livro "Um útero é do tamanho de um punho" (Cosac Naify, 2012).

Parece que ninguém gosta de vê-las, presumo até que ninguém as vê mesmo, afinal, quem quer ver uma mulher suja? Preferem apreciar as belas folhas verdes do espinafre, o brilho amarelado dos pimentões, o vermelho forte do tomate italiano ou sentir o perfume adocicado dos setores de frutas ou das flores.

Quem sabe através da poesia as pessoas voltem a ter amor ou ao menos, tenham a virtude de fazer de conta que amam (sobre isso, vale a pena a leitura da introdução do livro do André Comte-Sponville, "O amor").

Enfim, é a lírica copiando a realidade ou a realidade copiando a lírica? 

Recomendo a leitura do poema abaixo, e claro, uma visita ao Ceasa.





é o poema da mulher suja
da mulher suja que vi na feira
no chão juntando bananas
e uvas caídas dos cachos

tinha o rosto sujo
as mãos imundas
e sob as unhas compridas
milhares de micróbios

e em seus cabelos
longos, sujos, cacheados
milhares de piolhos

a mulher suja da feira
ela mesma uma fruta
caída de um cacho

era frugívora
pelas circunstâncias

gostava muito de uvas
mas em não havendo uvas
gostava também de bananas















30 de mai. de 2013

Mulheres e livros



Perfeita união.


É algo simplesmente maravilhoso. 





Veja alguns blogs desta união:

No Tumblr:

The Reading Girl! Clássicas:

As mais safadas:



É feriado, um pouco de besteira faz bem!

24 de mai. de 2013

O rei da solidão

Encontrei na mochila um velho conto escrito em algum momento de desvario. É um conto cruel e de tão cruel o autor criou um final feliz cruel de forçado.


Ele é o rei!

Do trono no centro de seu castelo inexpugnável e frio ele contempla seu passado. Passado que o levou até aquela posição. E do seu grandioso passado repleto de histórias insanas e trágicas, cuja vítima final era a si próprio, lembrou.

E relembra de uma bela acompanhante que encontrou em um orelhão do bairro oriental. A descrição de uma jovem loira o agradou e os custos envolvidos também eram atrativos para sua situação falimentar após o término de mais uma desastrosa paixão. Anotou o número e lá foi ele ao encontro da bela que não imaginara tão bela como realmente era, como era costume na propaganda naquele ramo de negócios.

Ao chegar ao nobre edifício em pedaços se dirigiu até o apartamento indicado e bateu na porta. Foi atendido surpreendentemente por uma loira magra (até demais lhe pareceu) de mais de um metro e setenta, peitos pequenos e cintura fina mas daquele formato de mulher que já tivera filhos. Ele certificou-se de seu nome fantasia e se dirigiram até um dos minúsculos quartos daquela república. A caminho, ela na frente também reparou no bonito andar e no bumbum também pequeno mas aparentemente durinho. Como dizem no ramo, pensou: me dei bem.

Chegando ao quarto havia somente uma pequena e velha cama e uma cômoda. Em seguida olhou e não conseguiu não notar o olhar triste e distante enquanto ela já se despia mecanicamente. Desde aquele momento ele a tratou como uma princesa e em troca deu e recebeu o que fora buscar.

O tempo passou num segundo e como naquele mundo os horários eram cronometrados aproveitou os minutos restantes para conhecer aquela princesa perdida.
Descobriu que moravam em cidades próximas daquela república do minuto, e mais, apenas três estações os separavam.
Ela também tinha uma filha pequena que amava muito, tanto que ao contar não resistiu, levantou-se, desfilou nua com dois passos até chegar à bolsa e mostrar as fotos da pequena princesa cujo pai a abandonou, fato que e a levou a tomar medidas extremas para manter a casa alugada, pagar a creche da menina e comprar roupas e alimento.
Ele também contou suas bobeiras e riram-se das próprias desgraças.

Mas o tempo, o maldito tempo, abreviou aquele encontro, no momento em que sobressaltada ela viu as horas no velho relógio Orient dele. Assim, ele se despediu com um beijo naquela rosto corado e perguntou se ela gostaria de sair com ele de "outra forma", recebendo um sim sem jeito, mas acompanhado de um sorriso que lhe parecia inesquecível.

Dias depois ele ligou para ela e começaram a conversar. De início ela não parecia acreditar no convite, mas ele disse que no final de semana iriam ao cinema e que ligaria de volta.
O fim de semana chegou, passou e ele não ligou.

Mesmo interessado naquela mulher ele enfrentou como pôde seus preconceitos contrários as chamadas mulheres da vida. Tentou argumentar contra sua mentalidade cristã dizendo que iria ser o salvador daquela alma pecadora. Usava argumentos absurdos e julgamentos idem em sua defesa, afinal de contas, como poderia um pecador salvar uma pecadora? Por fim, naquele emaranhado confuso que era sua mente naquele momento, pensou ter convencido a si próprio que o que importava era que se sentiu feliz junto daquela mulher e que valeria a pena avançar e a rever por muitos outros dias, e só ele beijá-la todos os dias em todos os horários possíveis.
De nada adiantou essa decisão, como vimos, pois nada fez para realizá-la.

Passados tantos anos ele já não se lembra muito bem daquele rosto e nem ao menos do nome verdadeiro que ela lhe dissera na primeira ligação após aquele encontro.
Seu agir fora cruel não só com a princesa do pequeno quarto, mas fora cruel com uma parte dele mesmo.
E mais uma vez, como era comum, ele sentiu aquela pontada rude e dolorosa em seu coração despedaçado por tantas más decisões e rompimentos.
E o grande rei permaneceu em seu trono de solidão imóvel relembrando outros amores perdidos até o dia que seu coração finalmente o abandonou.


Janeiro de 2012


Com pena de alma penada como esta fiz um final alternativo:

Mas de repente as batidas voltaram. Ele se levantou tempos depois um amor novo encontrou e radiante aquela mulher abraçou até o final de seus agora alegres dias nos campos da periferia de um reino de outro rei louco.

8 de mai. de 2013

Eu vi o fim do que já não existe mais


Ao mesmo tempo em que estamos em uma era de alta tecnologia, grandes conglomerados de consumo e comunicação e contatos instantâneos com pessoas e instituições possíveis através de um clique, há um movimento de substituição de antigas estruturas, serviços e tudo o mais.

Em tempos líquidos (termo retirado do onipresente Zygmund Bauman), o novo surge e destrona o velho com extrema velocidade. O que era verdade já não vale nada, pois não há mais verdades. É  tempo de extrema burrice e extremo avanço. 

Até quando será assim não sei, mas o que sei é o que vejo. 
E nestes dias eu vi:


Eu vi o fim dos serviços de entrega de produtos de limpeza em domicílio.

Hoje, terça-feira, dia 08 de maio de 2013, depois de anos vi um daqueles caminhões cheios de cândida, cloro, desinfetantes, vassouras e rodos.

Em cidades grandes como São Paulo, tudo se compra nos mega-hiper-supermercados e quem trabalha com esses caminhões está fadado a ficar desempregado e virar repositor de produtos nas grandes redes.


Também vi o fim das locadoras de vídeo.

Talvez a última locadora do bairro seja esta que visitei no último Domingo à tarde. A tristeza do ambiente e os últimos discos à venda no saldão trouxeram aquele sentimento de saudades ao peito. Saudade do primeiro aparelho VHS, do primeiro DVD-Player e também, vergonha, do primeiro filme pornô erótico que assisti na casa de um amigo quando morava na Aldeia de Barueri. O amigo era o cara, pois foi o primeiro a ter algo do tipo em casa.

Com o advento da Internet, do barateamento (falso, muito falso!) da TV a cabo e da facilidade de cópias de DVD's que ocasionou o surgimento de redes de bancas de CD's e DVD's pirateados aos poucos as locadoras deixaram de ser um dos centros privilegiados de entretenimento.

Ficam as dicas aos saudosos:
- para matar a saudade do velho VHS vale a pena assistir o filme "Rebobine, por favor". É só baixar o Torrent! risos.

- se estiver em São Paulo, não deixe de passar em uma das últimas redes de locadoras ainda bem das pernas.
Trata-se da 2001 Vídeo (http://www.2001video.com.br/midia/lojas.asp). A loja mais legal fica na Avenida Paulista.



Por último, eu vi o fim do reinados dos grandes galpões dos antigos bairros operários de São Paulo. Muito de fala dos galpões da Lapa, Brás e até da Vila Leopoldina, mas aqui no Jaguaré, de onde escrevo dia após dia vejo um deles ser derrubado para construção das onipresentes e cada vez mais altas torres residenciais (e agora comerciais).

Um dos últimos galpões é o desta foto onde aparece um dos prédios administrativos da falida Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC).
Hoje, o negócio se transformou em um modorrento estacionamento, por sinal, é o estacionamento em cuja placa de divulgação além de vagas para carros, caminhões e ônibus também podem estacionar aviões!
Dizem que nesse terreno enorme será construído um novo Shopping Center. Mas acho que não vingará, pois atrás do terreno se encontra a favela Nova Jaguaré.
Bom seria se o terreno fosse desapropriado e reurbanizado com a criação de lotes de vários tamanhos para a construção da vila CAC e não mais um monte de prédios da CDHU, COHAB ou das grandes incorporadoras paulistas.

É.... Continuo sonhando, acho que não sou deste tempo ou lugar.....




1 de mai. de 2013

Leitor de livraria: um bibliotecário

Por William Okubo

Depois de algum tempo tomo coragem (ou vergonha na cara) e me ponho a escrever mais um artigo para o Blog da Companhia... Não. Não. Não se trata do charmoso Blog da Companhia das Letras, e sim do Blog da Companhia dos Maltrapilhos!

E eis que escrevo sobre a presença de um bibliotecário selecionador (que na falta de ânimo de selecionar para a Biblioteca onde trabalha seleciona para si próprio, um bibliotecário-leitor) em sua visita ritual a uma das grandes livrarias da paulicéia desvairada e atolada.

Foi ontem à noite a visita.

Depois da dupla jornada de trabalho (o número 1 e o free-la) fui até a Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em minha modesta opinião, um dos lugares mais maravilhosos para leitores desta cidade. Calma aí, também curto as bibliotecas, meu!


Mas voltando ao que interessa, cheguei e já fui atrás de alguns lançamentos. Peguei uns 8 livros e fui me sentar na área dos pufes. Como de costume, eu lia e observava ao redor. Já eram 20 horas e aquele lugar estava lotado e foi quando vi logo à minha frente uma moça encostada gostosamente em um pufe lendo "Vermelho amargo", do ótimo Bartolomeu Campos de Queirós. Logo pensei: garota de bom gosto! Voltei para os meus livros...
Minutos depois vi chegar uma amiga. Elas se beijam e do nada uma delas solta um latido bem fraco. Lógico que eu e outros clientes-leitores da vizinhança olhamos para elas. No primeiro momento não vi nada, mas não satisfeito deixei os livros de lado e fiquei olhando atentamente para as garotas até que vi um minúsculo cão no colo daquela que lia o Bartolomeu!
Sim, era um cãozinho poodle que havia latido e não a garota. E o mais incrível, o danado havia ficado quietinho por um longo tempo sob os lindos seios de sua dona.....
Claro, que mesmo depois da descoberta continuei olhando e ouvindo a conversa até os momentos finais quando escutei o seguinte diálogo:
- Queria um desses lá em casa! Disse a amiga da voraz leitora.
- Eu também! disse uma outra leitora-cliente já seduzida pelas patinhas do bicho que batiam em suas costas.
- Auuu! Latiu por fim o cãozinho.
Cansado de cena tão cheia de fofura, peguei o celular e tirei a foto que acompanha o relato. Prova de que não é um conto da carochinha isto que vos escrevo....

Não poderia terminar sem dizer: como não amar um local que permite a entrada de pessoas com seus bichos de estimação e que dá liberdade para você pegar quantos livros quiser, fotografá-los livremente como fiz, deixá-los jogados a seus pés ou sob sua mochila fedorenta? É. As bibliotecas públicas precisam não copiar tal sistema mas buscar formas de trazer o aconchego que as livrarias disponibilizam a seus clientes-leitores.


Em tempo, vejam também as fotos dos bons livros que xeretei e indico!

Biografia do Casagrande (comprei!) e novo do Coetzee

Análise das poesias do Mário sobre São Paulo



Livro policial de texto muito, muito gostoso!


Depoimento do Museu da Pessoa em livro, com apresentação de  "famosos" (hahaha)

6 de dez. de 2012

Niemeyer e Tia Ester: saudades...

A madrugada de ontem e o dia de hoje trouxeram duas mortes.

A primeira já foi comentada o dia todo e não tenho nada a acrescentar a tudo que foi escrito e continua a se escrever.

Em relação a segunda, a história é diferente.

A Tia Ester é uma desconhecida até mesmo para mim, entretanto, ela era muito citada pela minha mãe e suas irmãs e irmãos. Morava em Pernambuco, mais especificamente na cidade de Arcoverde, no agreste do Estado e foi companheira inseparável de sua irmã, a Tia Olindrina. Esta mais velha que a primeira, ficou sem sua grande companheira depois de cerca de 80 anos de convivência com sua irmã 10 anos mais nova.

Durante a manhã de hoje a emoção acompanhava minha mãe, que como outras quatro irmãs que moram aqui em São Paulo se hospedaram quando moças na casa das Tias Solteironas.
Sim, quando uma mulher na família Viana Dutra demora para casar logo é comparada as duas inseparáveis tias beatas. Sim, elas são (eram) beatíssimas. Em sua última e única visita a elas há poucos anos atrás minha mãe me disse que elas continuavam a maior parte do dia a rezar e rezar.

E como é típico no lado nordestino da família, minha mãe começou a contar uma história, com lágrimas nos olhos naquele tom nostálgico e fala arrastada (nesses momentos o sotaque retorna com mais força):
Perdi a minha tia!
Quando morava com elas (quando moça ela teve que sair da casa da família devido a problemas com a madrasta), a Tia Olindrina, que era mais velha, já era muito católica e não nos deixava sair. Mas eu a Tia Ester costumávamos sair escondidas para ir passear na praça onde ficava o cinema... Minha tia era muito bonita. Também tinha um soldado que gostava dela, mas mesmo assim elas nunca namoraram! 
Vieram somente trechos, mas trechos representativos da sua memória. Memórias íntimas, como alguns tem memórias íntimas também do Niemeyer.
Oxalá a memória de todos que partem fosse tão bem celebrada como nesses dois casos.

Lógico que no pessimismo típico da minha mãe ela encerrou assim: daqui há pouco se vai a Tia Olindrina, depois a Firma (esposa de um tio que mora no Mato Grosso) e eu!

Pois é, tenho a quem puxar em pessimismo e no tom "reclamão" em alguns, ou vários, momentos.

5 de ago. de 2012

Encontro com o professor de xadrex

Metaficção elevada a cargas elevadas de potência

Acabara de ler na manhã daquele dia o conto Tólia do Ricardo Lísias, presente na coletânea da Granta. O texto é um tanto estranho, mas essa estranheza me chama sempre a atenção.
E lá estava eu entre as estantes quando me chamam e há uma pessoa procurando os livros do Monteiro Lobato. Lá fui eu em busca do 869.33 L. Claro que me enganei, pois o Loba
to fica no 869.34 L. Era para ser 33, por ele ter nascido no século XIX, mas o dito cujo só publicou no século XX, logo é 34! Mas biblioteconomia à parte, encontrei o livro e bem perto dos livros do meu ainda autor preferido passei pelos outros romances do Lísias e ao citá-lo o sujeito me disse: conheço ele! sou o professor de xadrex dele!
- Acabei de ler o conto da Granta, você já viu? Perguntei.
- Claro! Eu sou o professor de xadrex do livro. Respondeu.
- Mas não exatamente como está lá.
Em seguida ele me deu algumas explicações, me indicou alguns livros, sugeriu a compra de alguns autores que gosta e nos despedimos. Ao deixá-lo em meio às estantes saí estupefato, achando que de alguma forma eu estava adentrando no conto, obtendo outra versão da história contada pelo personagem... ou pelo Ricardo Lisias!
O relato parece sem pé nem cabeça. Mas tem explicação. Como o conto mistura realidade e ficção, o personagem fictício apareceu na biblioteca como sujeito real e eu, sujeito real, por um momento pensei ser ficção.
Para finalizar, como eu sempre digo: eu ganho pouco mas me divirto!

3 de mai. de 2012

Amor cego

Eclethion vivia em uma tremenda fossa.
Há meses terminara um relacionamento complicado e além de enfrentar a solidão, sua velha companheira, também estava zerado financeiramente. Sua última paixão havia levado seu pequeno saldo bancário ao limite do cheque especial e seus cartões de crédito estavam bloqueados para novos gastos. Aquilo era uma fossa ou o fundo do poço?
Restou-lhe navegar na Internet para passar o tempo e procurar por novas aventuras, pois também se distanciara de seus amigos durante o infeliz relacionamento.
E foi no hoje velho Orkut que encontrou uma bela e misteriosa loira: 1m65 de altura, cabelo lisinho, pele clarinha sem marcas (pelo menos as áreas disponíveis nas fotos compartilhadas), professora e moradora da cidade litorânea de São Sebastião (é mano, agora que ele iria semana sim, semana não, à praia!). Detalhe: julgou-a misteriosa porque em suas fotos não mostrava o rosto.
Logo, começaram a conversar via MSN e em seguida também por telefone. E nada da danada revelar sua suposta linda face. O máximo que mostrara certo dia foi sua boca. Ah, que lábios, relembrava ele! Mas não havia do que reclamar, afinal, quem vê cara não vê coração e ele sentia que aquele coração era lindo.
Sim, acredite, ele se apaixonara pela mulher sem face!
Durante as conversas, faziam planos sobre o primeiro encontro, o segundo, o terceiro e tantos mais.....
Viveram, à distância, momentos de entrelaçamento profundo. Tanto que certo dia, o pai dela falecera e ela ligou para ele chorando e ele chorou junto.
Parecia que o dia do encontro chegaria cedo e ele poderia consolá-la em seus braços, enxugar de seus rosto suas lágrimas... Eclethion era um romântico.
Dias depois, ela enviou a primeira carta, não uma simples carta, mas uma carta perfumada! Logo, ele percebeu que ela curtia perfumes importados. E foi logo comprando na primeira loja virtual que encontrou o perfume preferido dela. E claro, descobriu que ela gostava de homem perfumado, e foi logo comprando seu primeiro perfume importado. Era um Hugo Boss. E lá foi ele escrever uma carta perfumada também... 
O romance avançava e começou a enviar mais presentes: flores, bombons e mais flores e mais bombons. Escreveu algumas cartas em formato de diários demonstrando que não parava de pensar nela.
Foram momentos inesquecíveis para ele, que não notou que ela, apesar dos agradecimentos, pedia para não enviar tantos presentes. Enquanto ele se aproximava, enviando mensagens e mais mensagens SMS e presentes, ela se afastava. Até que um dia ela pediu para ele se cuidar e procurar um psicólogo, pois ele era muito carente. Ele não a ouviu, mas sentiu finalmente o afastamento. Afastamento que só aumentou nos dias seguintes até ela desparecer de sua vida sem ter nunca revelado sua misteriosa face.
Eclethion manteve-se endividado, solitário e triste.
Mas desde aquela época passou a usar perfume importado e anda cheiroso por aí, espreitando por novas confusões amorosas!

25 de abr. de 2012

Livros novos chegam velhos nas Bibliotecas Públicas

Como costumeiramente acontece sempre há um pouco de exagero no título de uma postagem e este não foge à regra. Ao mesmo tempo, a realidade beira o exagero.

Há alguns meses minha preocupação tem se voltado para o que na biblioteconomia chamamos de Desenvolvimento de Coleções. Sendo mais específico, tenho me debruçado (porcamente, admito!) sobre a crítica de livros, sejam eles de literatura, artes, história ou outros assuntos, e o impacto das resenhas e indicações no dia-a-dia das bibliotecas públicas.

O resultado é escandaloso!

Onde trabalho, esse material, principalmente as resenhas publicadas nos cadernos culturais ou em especiais separados em jornais e revistas de grande circulação (Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, Valor Econômico, Revista de História da Biblioteca Nacional, CULT, entre outros) e também a leitura de alguns blogs especializados (os que mais acesso: A Biblioteca de Raquel , Painel das LetrasDigestivo Cultural e o Livros Etc) são uma das ferramentas utilizadas para seleção de obras para aquisição baseada em critérios de qualidade e pertinência, uma vez que normalmente nas resenhas são identificadas as obras ótimas, boas e regulares. Tal procedimento é polêmico, mas diante de um mercado editorial em expansão e que publica, em minha opinião, muita besteira e prioriza modismos literários, não é recomendável e não há dinheiro suficiente para comprar tudo que é publicado.

Sempre quis utilizar as resenhas e recomendações também para divulgar as obras, mas nunca foi possível. Um dia, espero, poderemos ter um blog ou uma área do site, onde juntamente com as informações dos livros colocaremos as resenhas. No mundo físico, expor os livros com as indicações é outro sonho. Sem contar, as próprias indicações de leitores comuns ou conhecidos, além das indicações dos próprios autores.

Mas o problema maior é: depois de lançado um livro ou publicadas as resenhas, quanto tempo leva para o livro chegar as estantes das bibliotecas públicas? Depende! Depende de mais de uma dezena de fatores, resumidamente, eis alguns deles:
- nem sempre o orçamento está liberado no momento do lançamento: isso acontece normalmente entre os meses de novembro a fevereiro, época em que o orçamento de um ano acabou e o do ano seguinte não foi aprovado;
- não é permitido comprar livros de determinada editora antes de 60 dias da última compra;
- as editoras precisam apresentar várias certidões e várias, principalmente as pequenas sempre possuem alguma pendência que as impedem de ter tais certidões;
- as editoras ou distribuidoras devem apresentar as malditas cartas de exclusividade, emitidas normalmente pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o SNEL (Sindicato Nacional das Editoras e Livrarias), documento que é pago, e é óbvio, algumas editoras se recusam a pagar;
- algumas editoras ao ouvirem que é um órgão governamental que quer comprar, informam que não tem interesse em atender!

Devido a esses problemas, é uma verdadeira loteria informar a um usuário quando o livro solicitado chegará. Ou seja, o cidadão que se interessa por um livro recentemente lançado tem que esperar. E claro, aquele que possui condições financeiras vai na livraria e compra, mas e os que não tem recursos? Ficam na vontade!

Cito 2 exemplos.
Acabei de adquirir o livro "A visita cruel do tempo" da Jennifer Egan, título vencedor do Pulitzer de 2011, lançado em meados do mês de Fevereiro por aqui. Pesquisei nos catálogos das bibliotecas da cidade de São Paulo, na Biblioteca de São Paulo e na Biblioteca Parque de Manguinhos no Rio de Janeiro. Resultado? Ainda não disponível.
Nem preciso dizer que o "O céu dos suicidas", elogiado livro do Ricardo Lísias, lançado há cerca de 15 dias e que comprei no dia do lançamento ainda não chegou em nenhuma delas.

Alguém pode dizer que o importante é a obra chegar na biblioteca, mas fico pensando se não perdemos leitores quando, após saber de determinado livro, o cara vem até a biblioteca e nem ao menos recebe a informação que em 10/20 dias a obra estará à disposição.

Enfim, é preciso criatividade e muita lábia para vencer a burocracia, mas infelizmente predomina o descaso, tirando raríssimas exceções.
Seria ótimo se a Biblioteca Nacional criasse um programa de compra de obras que facilitassem esse processo de aquisição de obras novas.
Especificamente aqui em São Paulo, seria bacana se os editores de alguns dos meios de comunicação citados que recebem das editoras os livros para análise, os encaminhassem para uma biblioteca que se comprometeria a mante-los juntos das resenhas publicadas. Sairiam ganhando as publicações (jornais e revistas), as editoras e principalmente os leitores sem recursos que poderiam consultar em primeira-mão as melhores obras do momento!

Ufa! Isso poderia ser a base para um mestrado que há tempos procuro tema!

24 de abr. de 2012

Biblioteconomia nas décadas de 1940 e 1950


Início este blog hoje. Vamos ver se consigo avançar. A idea é publicar achados literários e informações sobre bibliotecas, bibliotecários e assuntos ligados à leitura.

Vamos ao que interessa agora.

Nesta noite de terça-feira fui guardar alguns livros no andar onde estão armazenadas as obras antigas de biblioteconomia da Mário de Andrade. Como é comum, guardei as obras e comecei a garimpagem.

Em meio há uma porção de obras estrangeiras bastante utilizadas no passado, foquei na localização de livros escritos em língua portuguesa. Em meio a vários títulos interessantes selecionados, falarei um pouco de dois deles.


O primeiro chama-se "Regras gerais de catalogação e redação de fichas". Trata-se de um manual de poucas páginas criado por uma comissão da hoje falida Associação Paulista de Bibliotecários, em 1941.

Chama a atenção a equipe que o elaborou, composta simplesmente por Rubens Borba de Moraes (dispensa apresentação), Adelpha Figueiredo (futura bibliotecária-chefe da Biblioteca Municipal e professora do curso de Biblioteconomia), Maria Antonieta Ferraz e Guiomar Carvalho Franco. 

Logo na apresentação, o espirito colaborativo daquela turma salta aos olhos no seguinte trecho: "De acordo com o mandato que recebeu, a comissão não cogitou de estabelecer um "código de catalogação" mas somente normas das principais regras básicas tendo em vista a situação dos catalogadores das pequenas bibliotecas, longe dos grandes centros e impossibilitados de manusear os grandes códigos universalmente consultados".
Ao ler o trecho acima me lembrei da palestra da presidente da ALA (American Library Association), Molly Raphael, ocorrida há poucos dias aqui em São Paulo, onde a mesma desenvolve um programa de mentores, onde os profissionais mais novos tem oportunidade de realizar encontros de várias formas com outros mais experientes.
Enfim, naquela época, mais importante era a colaboração do que a competição, e acredito, sem pieguismos, que foi um dos caminhos para a formação de bons profissionais em um período onde eram poucos e novos os cursos existentes. Aqui na prefeitura isso morreu nos últimos anos, mas tenho visto sinais de renascimento. Que assim seja!


O segundo texto na verdade não é um livro! É um artigo, na verdade uma separata, do Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal (hoje Mário de Andrade), publicado em 1950. Escrito por Antonio D'Elia da Secção de Expediente da Divisão de Bibliotecas.
No artigo, o autor descreve a necessidade de criar "Um ante-projeto de regulamento para a Biblioteca Municipal de S. Paulo" e logo de cara um dos motivos da criação de tal regulamento era atender aos pedidos frequentes de "solicitação de envio de regulamento da nossa Biblioteca, considerada modelar" pedidos "de vários Estados e de alguns municípios de S. Paulo - e mesmo do estrangeiro".
Do artigo, extenso, poderia destacar vários tópicos mas me detenho a dois trechos:
- A Quarta Parte, discorre a respeito "Do funcionalismo e do "pessoal menor" da Divisão de Bibliotecas". Claro que o pessoal considerado "pessoal menor" me chamou a atenção! Tratam-se de pessoal re-estruturado possivelmente contratado através de outra maneira que a usual à época.
Fica a impressão que desde aquela época o funcionalismo tradicional olhava com olhar torto os contratados de forma diferente do funcionalismo público tradicional. Infelizmente, logo que entrei na Biblioteca notei que alguns bibliotecários tratavam como "pessoal menor" todos os não bibliotecários.... É o preconceito brasileiro sempre à mostra descaradamente para quem quer vê-lo!
- Na Secção V, Da Secção de Biblioteca Infantil (hoje Biblioteca Monteiro Lobato) notei um artigo divertido e por que não bastante ditatorial, ei-lo:
Artigo 20 - De todo livro emprestado é exigida uma síntese, em ficha especial, que registra as impressões do pequeno leitor.
Sensacional, não?!
Além disso, vale a pena consultar as atribuições dadas àquela biblioteca. Não sei se tudo aquilo ocorria, mas era algo muito moderno que incluir: manter um serviço de cinema educativo e recreativo, manter serviço de jogos educativos e recreativos, manter jornal mensal mimeografado, manter um museu de pedras diversas, cartões postais, instrumentos de índios brasileiros, manter o Grêmio Cultural, organizar uma galeria de fotografias autografadas de escritores brasileiros, obtidas pelas próprias crianças e promover excursões e visitas a fábricas, estabelecimentos de ensino, etc.




O que sobrou disso hoje? Visita as bibliotecas citadas e outras públicas pelo país quando puder, tire suas conclusões, compare e proponha algo novo ou uma revisão do que era bom antes e pode ser hoje e amanhã!

Para encerrar, informo que os dois livros e outros que separei estão disponíveis para consulta na Biblioteca Mário de Andrade, na Coleção Geral.