17 de mai. de 2010

Misericórdia

LUIZ FELIPE PONDÉ

Misericórdia

Sou mesmo um crítico triste; conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo


É COMUM se dizer, sobre o filósofo Kant (1724 - 1804), que duas coisas o encantavam: no universo, a lei da gravidade e, no mundo, a lei moral. Para mim, duas coisas me assombram: no universo, a solidão dos elementos e, no mundo, a misericórdia.
Não me refiro à falsa misericórdia, aquela que mais é uma alegria mesquinha que sentimos diante da miséria alheia e que é, na realidade, uma espécie de gozo infame a serviço dos recantos mais obscuros de nossa frágil alma.
Perdão, mas hoje vou falar de cabala (a mística medieval judaica). Digo "perdão" porque, hoje em dia, ela está na moda.
"Meu Deus, como amo a moda", dizia a madame de Sévigné, em agonia. Deve-se evitar a moda. Infelizmente, "ensina-se" cabala por aí como se fora ela uma forma de escravizar Deus e o universo aos nossos desejos mesquinhos de sucesso. Cara leitora mística, atenção: se alguém se disser "professor de Cabala", cuidado! Antes de pagar as aulas, cheque se ele tem um profundo conhecimento de hebraico (não basta ser fluente na língua). Se não for o caso desista.
Se quiser escravizar o universo aos seus mesquinhos desejos de sucesso, restrinja-se a alguma técnica energética barata. Deve haver uns dez caras no mundo que entendem de cabala e nenhum deles mora na Vila Madalena ou atende via web.
Um dos "galhos" da árvore da cabala é chamado "Hod", que é traduzido por especialistas em história da cabala como "agradecimento".
É nisso que penso quando lembro que respiro, que minha mulher e meus filhos respiram, que meus (poucos) amigos respiram e, às vezes, sorriem.
Muitos teólogos sejam judeus, sejam muçulmanos ou sejam cristãos afirmam que a única teologia verdadeira é aquela que agradece. O leitor pergunta: "Mas este colunista deve ser bipolar. Como pode escrever hoje isto, se, nas semanas passadas, parecia habitado pelo demônio da crítica triste do mundo?".
Fácil responder essa. Não tenho diagnóstico de bipolaridade, mas quase sempre sou mesmo um crítico triste do mundo.
Conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo (acalme-se, leitor, uso a palavra "demônio" como metáfora) e, por isso, é que me sinto parte da humanidade.
Os humores variam, como as águas de um mar que responde a fúria da fortuna. Pela tradição judaica, Davi é o especialista na maior virtude hebraica antiga: a humildade. Em seus belos Salmos, ele canta a beleza de Deus e Sua misericórdia que escorre do Céu.
Muitos localizam esta misericórdia na mesma "árvore", como sendo "Hesed" (as vezes também traduzida como "piedade"). Davi respira essa misericórdia, por isso ele é considerado o "preferido de Deus".
Comentários rabínicos ao primeiro livro da Torá, "Bereshit" (na tradição cristã, Gênesis), contam uma história interessante sobre a relação entre a Justiça, a Verdade e a Misericórdia na origem da Criação.
Faço aqui a minha versão preferida dessa tradição: para mim a Verdade de Deus é Sua misericórdia. Estava Deus prestes a criar o homem e a mulher quando foi assolado por dúvidas terríveis. Chamou então alguns de seus assessores, a Justiça (próxima à ideia de julgamento ou "Din", outro atributo divino na cabala) e a Misericórdia.
Pergunta Deus a eles se valeria a pena criar o homem e a mulher, levando-se em conta o que nós faríamos (o pecado). A Justiça se coloca contra a empreitada dizendo que nós não valemos o "investimento".
Somos mentirosos, infiéis e orgulhosos. Seu voto seria contra. Já a Misericórdia vota a nosso favor. Diz que, mesmo sendo como somos, daríamos grande alegria a Deus nos poucos momentos em que seriamos capazes de ver, em meio à impenetrabilidade assustadora do nosso orgulho, Sua beleza.
Deus pensa e decide a nosso favor.
Todavia, talvez como forma de castigar a Misericórdia, que O convenceu a nos criar, Ele a despedaça contra o chão e a dispersa pelo mundo.
Assim sendo, ficamos submetidos, desde o alto, à desconfiança eterna da Justiça divina, ao mesmo tempo em que desesperados, arrastando pelo chão, buscamos os cacos da Misericórdia (ou da Verdade) que habita os recantos distantes do mundo e os detalhes infinitos da vida.
Por isso, dirão os sábios, Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo.

8 de mai. de 2010

Razões para o abandono de áreas ricas de convívio

Apesar de rigorosamente não gostar nada do Ruy Castro, devido principalmente a sua grande ligação com a burguesia carioca (da mesma forma que tenho certa ojeriza à mesma burguesia paulistana), no pequeno texto dele na FSP de hoje, concordo com a análise dele.

O engraçado é que, mesmo com uma tremenda distância entre pensamentos, modo de vida e locais de moradia, notamos que o problema de abandono de várias cidades e bairros no mundo, e principalmente no Brasil, tem como fator preponderante o tipo de uso deles.

O centro de SP, outrora vivia 24 horas, hoje vive somente em dias e horários comerciais.

Enquanto isso não mudar, tudo está perdido!

RUY CASTRO

Vida na rua

RIO DE JANEIRO - Era uma livraria na rua Dias Ferreira, no Leblon. As bancadas dos livros tinham sido recrutadas entre os móveis e utensílios de uma tipografia de 1900, com os tipos de chumbo transbordando dos caixotins, as pilhas de clichês velhos, as amarras, as ramas, os componedores e até uma guilhotina -objetos incompreensíveis para a maioria dos clientes e, ao mesmo tempo, tão a propósito: talvez tivessem ajudado a compor e imprimir os tataravôs dos livros novos, de história, urbanismo e artes gráficas, especialidades da casa.

A dois quarteirões dali, um sebo, o mais charmoso do Rio nos últimos 20 anos, e também cheio de bossa: grande literatura em várias línguas, fotos de craques do passado nas paredes, um gato preto chamado Zulu e sempre alguém interessante folheando alguma coisa. Certa noite, ouvi quando a bonita mulher de um diretor de televisão, olhando intrigada para as estantes, comentou: "Que engraçado! Quanto livro velho!".

Já faz tempo que nenhum dos dois existe mais. A livraria é hoje um laboratório de análises químicas, campeão em biópsias e exames de urina. O sebo tornou-se uma butique ou confecção -uma grife. O inconveniente é que, enquanto a livraria e o sebo ficavam abertos até tarde, acolhendo os livrescos notívagos e solitários, seus sucessores encerram às 6, com dia claro, e condenam boa parte de seus quarteirões ao escuro e ao nada.

O mesmo acontece quando fecha um cinema de rua e, com ele, evaporam-se da calçada o pipoqueiro, a fila, a paquera bem-sucedida, o reencontro de amigos e a oportunidade do convívio social onde ele melhor se realiza: no amplo espaço público. Você dirá que, para cada livraria, cinema ou loja de discos que fecha, abre uma pizzaria, um sushi-viagem ou um yogoberry.

Desculpe, mas não acho que seja a mesma coisa.

2 de mai. de 2010

A estrada, Alice, Livro de Eli, novo Woody Allen...

... e eu vou escrever sobre Homem de Ferro 2?

Pois é, apesar de já ter assistido "O livro de Eli" há duas semanas e estar lendo o maravilhoso livro do Cormac McCarthy que deu origem ao filme "A estrada". E estar na expectativa de assistir ao último Woody Allen, me vejo obrigado a falar desse blockbuster depois de assisti-lo junto do meu sobrinho de 7 anos (em tese, o filme é permitido para crianças a partir de 12, mas é tão infantil que crianças de até 5 anos podem assisti-lo sob esse ponto de vista).

É fato que esses filmes de ação na atualidade afetam os sentidos e deixam pessoas tontas como eu mais tontas com tanto barulho e tanto corte de cena, mas gosto disto como gosto das cenas longas filmadas nos melhores filmes de um Clint Eastwood ou da introspecção e desespero de um "O escafandro e a borboleta". Como em muitas coisas, passeio pelo que é requintado ou popular.

Infelizmente, para alguns, digo que algumas cenas do Tony Stark, o tal Iron Man, me fizeram lembrar o modo como se comportam certos líderes religiosos. Como eles, ele diz que salvou o mundo, como muitos acham que salvam seus seguidores. Como ele, dizem para matar para salvar. Como eles, diz que privatizou a paz mundial... opa... deixei escapar um faísca contrária à privatização e capitalização do ser humano em voga... E quando os tais líderes não dizem que salvam, dizem que suas instituições salvam!

Vejam, é possível tirar algo do vazio. Logo, é possível, mudar a situação desses infeliz país, onde leis exdrúxulas são criadas, e ainda bem que não seguidas, entrentato acontece que as poucas leis corretas são totalmente desreipeitadas, e onde o povo está amortizado, vivendo como párias e sanguessugas uns dos outros, sem lutar pelos seus direitos e sem levantar um dedo contra as atrocidades diárias feitas a seus irmãos de nação.

Em luta, por um país sério em todas as camadas da vida, um abraço aos parcos leitores.

William

21 de abr. de 2010

Sobre Brasília

Ele foi cruel. E aprovo seus comentários, apesar de pessoalmente achar um belo lugar... pelo menos a área planejada!

FERNANDO RODRIGUES




Brasília, 50

BRASÍLIA - A capital federal faz hoje 50 anos. Valeu a pena construí-la aqui, no meio do nada? É difícil argumentar a favor.

Na área social, a contribuição de Brasília ao mundo foi o apartheid planejado. Nos anos 60, favelas começavam a sujar a paisagem. Pobres aos milhares foram removidos para o cerrado aberto, a 30 km de distância. Era a Campanha de Erradicação de Invasões. Nasceu Ceilândia. Hoje, tem 600 mil almas.

Os bairros centrais de Brasília são higienizados. A periferia, encardida. É a terra do autoengano. Não há favelas constrangedoras à vista como em São Paulo ou no Rio. Alguns brasilienses festejam "con gusto" a segregação civilizatória (sic).

Outra ideia basilar de Brasília foi mudar o eixo de desenvolvimento do país. Sair do litoral rumo ao centro. Houve avanços. Em 1960, a região Centro-Oeste respondia por 2,5% do PIB do Brasil. Em 2007, pulou para 9,3% -e 40% desse bolo sai da capital da República.

Então, deu certo? Não. Só há dinheiro público aqui. Não se fabrica um parafuso em Brasília. A economia é uma ficção. Baseia-se 93% em serviços anabolizados pelo governo. Os funcionários públicos detêm 40% da massa salarial.

A riqueza de Brasília é estadolatria pura. Em 2009, seu orçamento foi de R$ 18,7 bilhões. Desse total, R$ 7 bilhões (37%) saíram do Fundo Constitucional do Distrito Federal. Ou seja, cada um dos 192,8 milhões de brasileiros desembolsa R$ 36 por ano para sustentar os escândalos candangos de dinheiro escondido em meias e cuecas.

Políticos encrencados há por toda parte, sem dúvida. Mas a capital da República ostenta o recorde de ser a única unidade da Federação a ter eleito três senadores apeados do cargo acusados de atos ilícitos.

Passados 50 anos, Brasília é uma profecia não cumprida. Vive em simbiose parasitária com o governo. Ao nascer, era um erro histórico. Agora, tornou-se um equívoco irreparável por opção. Triste.

13 de abr. de 2010

Você nunca tentou descobrir que livro alguém está lendo?

Menos capas para julgar

Divulgação

Em locais públicos, capas de livros atraem leitores em potencial ou dizem algo sobre o gosto do dono

Por MOTOKO RICH Bindu Wiles estava no metrô do Brooklyn, Nova York, em março, quando viu uma mulher lendo um livro cuja capa tinha uma instigante silhueta negra da cabeça de uma menina diante de um fundo laranja.
Wiles notou que a mulher tinha mais ou menos a sua idade, 45, e levava consigo um colchão de ioga, então imaginou que elas tinham afinidades e se inclinou para ler o título: "Little Bee", romance de Chris Cleave. Wiles, pós-graduanda em escrita de não ficção na Faculdade Sarah Lawrence, em Bronxville, digitou uma anotação no seu iPhone e comprou o livro naquela mesma semana.
Tais encontros estão ficando mais raros. Como cada vez mais gente usa o Kindle e outros aparelhos eletrônicos de leitura, e com a chegada do iPad, nem sempre é possível observar o que os outros estão lendo, ou projetar os seus próprios gostos literários. Não dá para julgar um livro por sua capa, caso ele não a tenha.
"Há algo [de especial] em ter um belo livro que parece intelectualmente pesado e apetitoso", disse Wiles, que se lembra de ter gostado quando recentemente, ao reler "Anna Karenina", as pessoas podiam ver a capa no metrô. "Você se sente meio orgulhosa de estar lendo isso." Com o Kindle ou o Nook, disse ela, "as pessoas jamais saberiam".
Entre outras mudanças prenunciadas pela era do e-book, as edições digitais estão varrendo as capas de livros dos metrôs, das mesas de centro e das praias dos EUA.
Isso é uma perda para editores e autores, que costumam aproveitar a publicidade gratuita para os seus livros na forma impressa: se você observar as sobrecapas nos livros que as pessoas estão lendo num avião ou num parque, pode decidir também conhecer os títulos "Os Homens Que Não Amavam as Mulheres" ou "The Help".
"Com frequência, quando você pensa num livro, lembra-se da sua capa", disse Jeffrey Alexander, professor de sociologia cultural da Universidade Yale. "É uma forma de atrair as pessoas por meio do visual para a leitura."
Nas livrarias, onde a maioria das vendas ainda acontece, as capas têm um papel crucial. "Se você já passou por esse obstáculo de fazer o consumidor ser atraído pela capa, e ele decide pegar o livro, uma enorme batalha foi vencida", disse Patricia Bostelman, vice-presidente de marketing da rede de livrarias dos EUA Barnes & Noble.
Mas é uma vitória que será mais difícil de alcançar se ninguém for capaz de perceber se você está lendo "Guerra e Paz" ou "Diamonds and Desire". Talvez nenhum outro elemento do processo editorial receba tanta contribuição de tanta gente diferente quanto a sobrecapa. Primeiro, o diretor de criação chega com uma ideia.
(Que tal esta imagem de uma maçã?) Aí o editor do livro, o autor e o agente dão uma olhada. (Dá para aumentar a fonte no nome do autor? E já não foi usada uma maçã naquele livro sobre vampiros? Este livro não é sobre vampiros.) O editor do selo se envolve.
(Vampiros vendem. Eu gosto da maçã.) O pessoal de vendas faz comentários. (Não há um ângulo econômico? Que tal uma maçã com uma laranja dentro? Isso já funcionou antes.) Até os livreiros têm uma opinião. (O que eu realmente gosto numa capa é um par de saltos altos.)
Claro que uma boa sobrecapa dificilmente salva um mau livro. Mas, num mercado concorrido, uma capa chamativa é uma vantagem que todo autor e editor deseja. Para se ter uma ideia, numa análise aleatória de mil livros de negócios lançados no ano passado, a consultoria Codex Group descobriu que apenas 62 venderam mais de 5.000 exemplares.
Conforme as editoras exploram a publicidade dirigida no Google e em outros mecanismos de busca e redes sociais, elas percebem que uma capa digital continua sendo a melhor forma de representar um livro.
Alguns leitores esperam que os dispositivos eletrônicos de leitura acrescentem funções que permitam divulgar o que se lê. "As pessoas gostam de exibir o que estão fazendo e o que gostam", disse a blogueira Maud Newton. "Então acabará havendo um jeito de as pessoas fazerem isso com os e-readers."
Por enquanto, muitas editoras confiam no efeito Facebook. "Antes, você podia ver três pessoas lendo 'Comer, Rezar, Amar' no metrô", disse Clare Ferraro, presidente dos selos editoriais Viking e Plume. "Agora, você vai entrar no Facebook e notar que três dos seus amigos estão lendo 'Comer, Rezar, Amar'."
Algumas editoras digitais suspeitam que uma das razões para a popularidade das edições digitais de obras românticas e eróticas seja a discrição dos e-readers. Mesmo assim, as capas ainda importam.
Holly Schmidt, presidente da editora de e-books Ravenous Romance, contou o caso de uma antologia de contos sobre mulheres mais velhas e homens mais jovens. A primeira versão tinha na capa digital a imagem de uma mulher cativante. Não vendeu quase nada. A editora disponibilizou uma nova capa on-line -desta vez mostrando os torsos nus e musculosos de três jovens-, e as vendas decolaram.
A nova capa, segundo Schmidt, "pegou um livro fracassado e o transformou em um produto de vendas bastante fortes".

Eu sempre tento ler o que outras pessoas estão lendo no ônibus ou no metrô....
W.

5 de abr. de 2010

Sobre amor

Segue uma dupla citação:

"O amor é uma bem fundamentada preocupação com o bem de todos". by Dallas Willard

"O amor não tem visão estreita. Se começo a levar os necessitados para minha casa e destruo minha vida familiar, é óbvio que não estou sendo guiado pelo amor. Os mandamentos de Jesus devem ser entendidos no amplo contexto da lei do amor. A intenção do ensino bíblico não é anular nossa existência, e sim nos libertar. Ele corresponde ao alegre toque de trombeta que conclama a todos para se libertarem da ditadura da reputação, da riqueza e do poder".

Retirado do maravilhoso "A liberdade da simplicidade: encontrando harmonia num mundo complexo" escrito por Richard Foster.

31 de mar. de 2010

O centro de SP em cinco quarteirões

Quarta-feira, dia 31 de Março, 21 horas.


Das 19 às 20h30 estive no Projeto 242 em uma singela festa de Páscoa para as crianças da região do Glicério/Liberdade. Mais de 60 crianças e muitos sorrisos e risadas! E um beijo melado na minha bochecha dado por uma garotinha de mais ou menos 4 anos com Down! Emocionante!


Depois, carona até a porta da Igreja da Graça na Avenida São João. Desço dali e vou numa padaria na Rua Aurora. Ao entrar, não resisto e sento no balcão e peço uma pizza, duas pizzas, três pizzas e dois refrigerantes! Depois reclamo que a barriga não diminui.... No balcão há um traveco lanchando antes de se trocar e ir para seu ponto. Na saída, vejo que os pedaços de pizza ficaram barato. Alguém não anotou uma pizza. Olho na tela do computador do português e vejo só anotaram dois pedaços. Sou tentado a ir embora, mas acabo pagando o terceiro pedaço. O nome do pedaço era Sideral, uma mistura de mussarela, calabreza, cebola, azeitona, bacon, que apelidei de "me dá aquela colorida ali"!


Saio da padaria e para tentar descontar as calorias descido fazer um caminho mais longo para casa. Entro na rua Guaianazes e vejo um supermercado ECON (filhos da mãe! Em toda área popular tem um!) de onde sai um cara e um garoto de rua rapidinho se adianta a ele e começa a lavar o vidro dianteiro do carro. Ele ganha umas moedas! 


Logo depois, passo pelo Projeto Retorno, onde havia um povo lavando o salão. Leio que é um projeto da Secretaria Geral de Missões da Igreja Quadrangular. Que bom mais um projeto social (ou evangelizador, sei lá!) se instalar naquela área.


Continuo minha caminhada e chegou até a rua Barão de Itapetininga. Atravesso por um grupo de prostitutas, depois por um pessoal bebendo num bar, depois por um bar só com africanos até chegar no hotel Formula 1 já na avenida São João. Sinto ao longe o cheiro da Yakisoba de rua de um casal de chineses e lembro que faz tempo que não experimento uma bandeijinha de R$3,00! E lá vou eu, até passar novamente pela Igreja da Graça agora fechada e com dois moradores de rua deitados dos dois lados dos portões... fiquei com saudade de quando ali era o cine Metrô.


Na rua dos Gusmões passo por algumas pessoas, dois homens e três mulheres, quando ouço uma delas dizer: não quero morar aqui não!


Chego na famosa esquina da São João com a Ipiranga e me deparo com o povinho bebendo e comendo as deliciosas iguarias de lá (bem.... já fui lá uma vez. O dono me deu um chop e uma porção de pasteis em uma reunião que fiz por lá). É divertido ver o bando de seguranças olhando de lado a lado para proteger os medrosos fregueses! hahahaha
Finalmente passo pela Esquina da MPB do mesmo Bar Brahma e vejo lá dentro uma bela loira acompanhada de um violonista no palco. Passo pelo novo Marabá e quando estou na esquina para atravessar para o outro lado da rua um caminhão faz a curva a toda e derruba várias garrafas na pista. Logo depois passam três ou quatro carros e se ouve aquele barulho terrível de vidro quebrando! Ouço o grito dos moradores de rua que se divertem com o ocorrido!
Ao chegar na galeria onde moro ainda há alguns senhores sentados nas mesinhas de um bar cantarolando um samba antigo e para alívio de algum leitor chego aqui!


Noite quente, não?

13 de mar. de 2010

Sou um romântico?

Muito bem, eu me acostumei a dizer que não o sou mais.

Mas analisem alguns fatos comigo.

Ontem, quinta-feira, às 22h20 minutos estava voltando da aula de inglês (volto andando até meu apto) quando decidi religar meu iPod e ouvir alguma música durante a caminhada. Liguei-o e escolhi ouvir uma coletânea do velho The Police.

Comecei com Roxanne e no meio da caminhada cheguei à faixa intitulada "Message in a bottle", duas das minhas canções preferidas deles.

No meio desta última senti uma saudade tremenda de estar com uma mulher em algum lugar à meia-luz conversando e depois dançando ao som dessas canções.

Sai do transe e me vi caminhando diante da Igreja da Consolação no Centro e mais uma vez divaguei, oras eu poderia estar com esta mulher dançando aqui mesmo, pois não importa o lugar, desde que estivéssemos conectados.

Enfim, não sou mais romântico. Devo ser mesmo um maluco!

Talvez o seja mesmo, entretanto, acredito que possa ainda encontrar uma maluca para dançar comigo em plena avenida...

Bem, eu sempre vou e volto aqui.... eis outro retorno!

W.

21 de fev. de 2010

Direto de uma página de rosto

Lá estava eu a separar (e me deliciar) com um bom lote de livros doados para a Biblioteca.

No meio das caixas me deparo com um surrado livro. Com mais de 600 páginas, seu título era: Meu destino é pecar. Autoria de Suzana Flag.

Claro que abro-o para folheá-lo e me deparo com a seguinte dedicatória:


À minha amiga e companheira,
Com os votos mais ardentes para que possamos um dia reparar o remorso de hoje.


Com toda sinceridade do seu, Fulvio.


30/08/1944

Agora fico aqui tentando imaginar o que acontecera com este casamento?
Creio que uma amiga possa escrever uma história sobre o ocorrido....

W.

17 de fev. de 2010

Sobre uma cruz

Na Ilha do Mel, no Paraná, de uma praia onde estava avistei uma cruz no alto de um morro.
Aquela cruz chamou tanto minha atenção que retornei pelo caminho quente e aparentemente desolado sobre a areia quente do mormaço que ali fazia.

Não me contentei em me aproximar e tirar as fotos. Fui impelido a subir o morro e o fiz.

A subida não foi fácil, pois depois conversando com um nativo descobri que ele se chama "morro do sabão" devido a dificuldade da subida.

Depois de alguns minutos lá estava eu....  Não sei se de medo do lugar tão estreito onde fora colocada a cruz ou do cansaço da subida, eu estava tremendo. Tive que aguardar um pouco antes de tirar as fotos do que eu via e da própria cruz.

Foi quando pensei no caminho que enfrentado pelos condenados à morte de cruz na famosa gólgota onde Jesus foi crucificado.

Eu fui até lá sem nenhuma cruz, mas muitos outros enfrentaram tal caminho com suas cruzes às costas.
Eu fui lá porque quis ir. Muitos foram até lá obrigados.
Jesus o fez por um designío maior. Só de subir sozinho imagino a dor enfrentada pelos homens que sofreram tal condenação.
Aquela subida me faz pensar o quão beneficiados somos hoje em dia. Não temos que fazer nada por obrigação, nem somos escravizados (infelizmente ainda há muitos escravos, é fato).

Temos liberdade e não sabemos vivê-la.


Hoje temos a opção de ir até a cruz, não temos que levá-la!