31 de dez. de 2011

Feliz Ano-Novo Pessimista

Historicamente, não curto muito o Dráuzio Varella, mas gostei desse texto dele sobre essa época do ano. Nunca consegui ficar não atormentado nessa época, logo, sou irmão dele.

Feliz Ano-Novo!
William Okubo

DRAUZIO VARELLA

Dizem que uma das aquisições da maturidade é a aceitação das fraquezas e das limitações pessoais
Fim de ano é sempre um inferno. Começa com o Natal, festa pagã consumista disfarçada de comemoração religiosa que nos enche de obrigações e tumultua a vida da cidade, já antes do primeiro de dezembro.
Com os dois olhos nas vendas e nenhum no aniversariante, o comércio se engalana com papais noéis obesos em posições circenses nas janelas e nas marquises das lojas, adornados com guirlandas de plástico, bolas multicolores e flores artificiais amarradas com laços vermelhos de bordas douradas, em meio às luzinhas que serpenteiam junto de trenós e renas a cavalgar num calor de 30 graus.
É um festival de breguice urbana de raro senso estético.
O trânsito de São Paulo que já é de chorar, vira uma tortura. As ruas que ousam chegar perto dos shoppings, da 25 de Março e das lojas do Bom Retiro viram estacionamentos a céu aberto, nos quais os carros se movem ocasionalmente.
A decoração da avenida Paulista e a incrível árvore de Natal do Ibirapuera atraem tanta gente desocupada, que pobre do mal-aventurado que precisa se locomover por essas paragens.
Graças às hordas de curiosos motorizados que se acotovelam para espiar a decoração da Paulista, sexta-feira passada fiquei preso num congestionamento na avenida Rebouças, à meia-noite. Tem cabimento? Ainda mais irritante é a felicidade natalina que se dissemina à medida em que o dia 25 se aproxima.
O pessoal dos escritórios lota os bares e restaurantes para almoços e jantares de confraternização ensurdecedora. Em meio à gritaria alcoolizada, todos se abraçam e se beijam, juram amor eterno e trocam presentes com os amigos secretos.
Nessa época, chovem convites para sair com parentes e amigos. Parece que se não os encontrarmos antes do fim de ano, o relacionamento sofrerá um abalo terrível.
Como alegar falta de tempo para não atender a essas convocações é considerado menosprezo, lá está você de banho tomado na correria, morto de fome, depois de um dia trabalho, do calor insuportável e do trânsito insano, para um jantar que será servido às dez e meia, quando todos já estiverem enfastiados com os canapés, azeitonas, patês e queijinhos servidos com as bebidas.
Vira um martírio trabalhar nessa época em que todos estão em clima de festa. A partir do dia 15, até o inadiável fica para o ano seguinte. Quando chega a hora de reunir a família na ceia de Natal, já estou desanimado de tanto correr, beber e comer mais do que devia.
O prazer de ver as crianças excitadas com os presentes embaixo da árvore, entretanto, compensa o sacrifício dos dias anteriores. Invadido pelo espírito natalino, chego a admirar o clarão dos fogos ao longe e até as luzinhas coloridas no prédio vizinho.
Nos dias que se seguem parece que São Paulo mudou de cidade: calçadas desertas, lojas fechadas, trânsito de 1950.
Pensa que faço as pazes com a paz? Nesse ambiente pacato sou tomado pela ansiedade do Ano Novo; prometo para mim mesmo que tudo será diferente, desta vez.
Agora trabalharei menos, dedicarei mais tempo para os amigos, visitarei o tio querido que passou dos 90 anos, andarei à toa pelas ruas do centro velho, apanharei chuva, estudarei mais, lerei as revistas e os livros que empilhei na cabeceira, viajarei para o rio Negro, terminarei de escrever o livro que está pela metade e correrei duas maratonas: uma no primeiro, outra no segundo semestre.
Serei um médico mais competente, mais culto, um escritor com domínio da escrita e um maratonista capaz de atravessar a linha
de chegada sem a exaustão que dá vontade de chorar no meio da rua.
Tenho o bom senso, no entanto, de guardar em segredo essas intenções. Não ouso divulgá-las porque já o fiz em tantas oportunidades, que acabaria desmoralizado outra vez. A julgar pelos anos anteriores, daqui a pouco estarei tão envolvido com o trabalho que os bons propósitos irão para o espaço.
Dizem que uma das aquisições da maturidade é a aceitação das fraquezas e das limitações pessoais. Talvez eu morra sem resolver a contradição entre o trabalho excessivo e o lazer.
Vou parar de me queixar, às vezes fico cansado de ser eu.
Feliz Ano-Novo para você, leitor amigo, menos atormentado do que este que vos escreve no último dia de 2011.


27 de dez. de 2011

A volta de Jesus, 2011 anos depois

Roubei primeiro do Ricardo Kotscho, que por sua vez roubou do Frei Betto. Um dos melhores textos que li nos últimos tempos sobre o Natal.

Conforme a ocasião, é melhor a gente passar a palavra para quem entende do assunto.

Neste Natal de 2011, meu presente para os leitores do Balaio é um belo texto sobre "A volta de Jesus" escrito pelo meu velho amigo Frei Betto, escritor e frade dominicano, que transcrevo abaixo:
A VOLTA DE JESUS
Frei Betto

Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2011. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.
Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.
Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.
Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.
Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs...
Roubaram um carro defronte a faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.
O delegado inquiriu-o:
— Nome?
— Jesus.
— Jesus de quê?
— Do Pai e do Espírito Santo.
O delegado ditou ao escrivão:
— Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.
A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.
Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus... Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.
Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:
— Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar...
Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!
Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.
Tarde da noite, viu uma igreja aberta. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.
Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos... Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.
Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.
— É pra você comemorar o Natal – disse o homem.
Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:
— Ei, cara, tem o que aí?
— Pão, salame e refrigerante.
— Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.
Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.
— Se não importa de beber no mesmo gargalo...
— Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher. ¾ Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.
— Você não tem família?
— Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.
— Esta noite de Natal não significa nada pra você?
— Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela puxando o lenço de dentro da bolsa.
A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:
— Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?
— Não sei... O que você acha?
— Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.
— Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?
— No meu coração ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.
— E o que diria a ele?
— Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?
— Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.


25 de dez. de 2011

A alma das cidades: pedestres em São Paulo

Como bem sabe qualquer turista, um dos prazeres de conhecer as grandes cidades do mundo está em simplesmente caminhar sem destino fixo, deixando-se levar pelo acaso das ruas.
A surpresa de encontrar uma praça escondida, de se deparar com um ângulo insuspeito da paisagem urbana, se soma à experiência de mergulhar no fluxo dos passantes, flagrando sua diversidade no vaivém cotidiano.
Não são muitas as regiões de São Paulo capazes de oferecer esse tipo de sensação. A cidade, notoriamente hostil ao pedestre, tende a estruturar-se como um mosaico de destinos razoavelmente interessantes, todavia cercados de zonas mortas, quando não perigosas.
Assim, o núcleo turístico criado em torno da Pinacoteca de São Paulo se encolhe nas imediações da cracolândia, e, na Cidade Jardim, os esplendores de um shopping de luxo aterrissaram às margens de uma via expressa.
A região da avenida Paulista e da rua Augusta é uma das poucas em que o pedestre, ainda mais se for turista, pode apreciar aquele meio termo entre a homogeneidade e a diversidade, entre a segurança e a surpresa, que faz a graça dos locais mais visitados nas grandes cidades do mundo.
Diante da notícia de que quatro shoppings serão construídos nessa área, é natural que os especialistas se dividam. "O shopping é anticidade", opina Álvaro Puntoni, professor da USP. Haveria mais sentido, diz o planejador urbano Thiago Guimarães, se complexos comerciais fossem construídos fora do centro, redirecionando o trânsito e a atividade econômica para áreas menos congestionadas.
Não há incompatibilidade de princípio entre a existência de um shopping e a vitalização das vias ao seu redor. É claro que um "bunker" comercial, fechado para a rua, como é comum em São Paulo, constitui agressão à cidade. Pequenos shoppings semiabertos, de que há exemplo aliás na região do Itaim, podem, entretanto, integrar-se à rua tradicional -e parece ser esta a intenção de alguns dos novos projetos da Paulista.
Mas é, sobretudo, a valorização da rua que precisa se impor em São Paulo, com reformas de calçadas e enterramento da fiação, como se fez, por exemplo, na Oscar Freire. Um caminho que também poderia ser tentado é inverso e simétrico ao da construção de shoppings: ruas que, tendo ampla oferta de lojas e restaurantes, priorizem o pedestre. Servidas por bolsões de estacionamento, seriam como que shoppings a céu aberto, ou, quem sabe, coisa melhor: lugares de convívio urbano livre e democrático.
É só em ambientes assim, de delicada ecologia econômica e social, que a alma das cidades sobrevive.

22 de dez. de 2011

Leis de incentivo a Cultura: posição coerente


TENDÊNCIAS/DEBATES
Os valores e a cultura
Parece politicamente correto combater as leis de incentivo cultural, mesmo que sigam sem contestação os incentivos em todos os demais terrenos
O cancelamento de uma exposição de arte no Rio foi objeto de recente reportagem da "Ilustrada", na qual o foco caiu em partes iguais sobre a censura a uma obra, os valores de quem paga pela arte, e sobre as leis de incentivo cultural, que, diz o texto, delegam às empresas o poder de decidir o conteúdo cultural a mostrar e, portanto, subentende-se, são (também) as culpadas.
Aqui não se discutirá a censura à arte. Censura é inaceitável, fim. Assentado isto, os pontos a discutir são dois: 1) de onde podem vir os valores que orientam a escolha da arte a apoiar e 2) as leis de incentivo que conferem poder de escolha à sociedade civil.
O título maior daquela notícia dizia: "Valores corporativos ditam o financiamento cultural". É verdade. Valores, corporativos e outros, sempre o fazem. Na história das sociedades ocidentais, esses valores foram e têm sido ditados pela Igreja, pelo Estado e pela sociedade civil (que inclui a iniciativa privada).
Embutidos nesses atores estão curadores, críticos e artistas, igualmente procurando impor seus valores -estéticos, morais, ideológicos, comerciais. É assim que as coisas funcionam. Quando se critica os "valores corporativos", subjaz a ideia de que há outros melhores para impor esse "diktat".
Quais? Nem a Igreja (qualquer delas) nem o Estado (qualquer deles, com qualquer governo) têm mais legitimidade do que a sociedade civil (com essa sua parte, a iniciativa privada) para ditar valores à arte.
De resto, por lei a igreja não mais o pode fazer. Quanto ao Estado, é imensa ingenuidade, ou perversão, supor que ele (qualquer que seja, e seja qual for seu governo) ditará valores culturais mais adequados. A história o comprova. Resta a sociedade civil, com todo o seu espectro e suas inúmeras opções.
Os "valores corporativos" (expressão ruim: a igreja também tem seus valores corporativos, como o Estado) não são os únicos, nem os decisivos, dentro da sociedade civil. Mas dela fazem parte.
A questão, portanto, não é saber se valores, quaisquer que sejam, podem ser ditados à arte: eles são sempre ditados. Cabe escolher o caminho mais favorável à arte e à sociedade. As leis de incentivo fiscal, com sua delegação da escolha à sociedade civil, são parte do cenário, e parte importante, uma vez que o mercado da cultura é incipiente, e o Estado, ausente.
É preciso continuar lembrando que a criação dessas leis significou uma ansiada independência (embora relativa) da sociedade civil diante do Estado que a oprimira durante 20 anos. Mesmo porque cultura é uma questão da sociedade civil, não do Estado.
As leis de incentivo à cultura continuam sob ataque. E sua defesa é tímida ou inexistente, sobretudo em público. Parece politicamente correto combatê-las, mesmo se todos os demais incentivos em todos os demais terrenos sigam sem contestação. Pode-se discutir se o incentivo fiscal deve ser apenas para o artista independente ou se cabe também para a instituição.
Mas o sistema da arte precisa dos dois: o artista fazendo sua parte, a instituição pondo-o em contato com seu público e com a história. A medida dessa distribuição é o que cabe discutir. A instituição corporativa pode ter seu espaço, e as instituições artísticas sem corporações a mantê-las, idem. Ao lado do Estado, outro ator naquilo que lhe cabe.
A arte, ainda mais que a cultura, é um combate pelo gosto. E esse combate se apoia em valores, todos conflitantes. Só desse conflito surge algo estimulante. Cabe compensar o sistema ali onde os pesos se tornam desiguais, não aboli-lo ou a algum de seus atores.

JOSÉ ROBERTO TEIXEIRA COELHO é professor titular de Ação Cultural da USP, autor de "História Natural da Ditadura" (2006, vencedor do Prêmio Portugal Telecom), entre outros livros, e curador do Masp (Museu de Arte de São Paulo).

1 de dez. de 2011

Zona Leste

Engraçado, mais um texto sobre a região.

Desta vez o texto não é de ninguém conhecido: Riselda Morais. Ela publicou um livrinho de poesia em 2010 pela editora do Autor. Nao é nenhuma Cecília Meireles, mas ela se esforça.

Enquanto isso.... o governo ajuda a gastar milhões para construir um estádio de futebol. O mesmo que aconteceu e dizem não ter acontecido quando construiram o Morumbi.


ZONA LESTE

Eis, a grande Zona Leste
Onde milhões vem dormir
De dia todos vão trabalhar
Para a cidade construir

É diário o deslocamento
Da vida e sobrevivência
Uma comunidade sofrida
Em constante convivência

Vivendo com esperança,
Amor e força para lutar,
assim, os habitantes,
fazem a região leste melhorar

Mais qualidade de vida,
saúde, esporte, educação
arte, lazer, transporte
exige mobilização

27 de nov. de 2011

Em plena Radial Leste

UGO GIORGETTI

Domingo de manhã, muito cedo. Em plena Radial Leste surgiu na minha frente uma camionete, dessas com uma pequena caçamba, dentro da qual vi uma moça sentada sobre o que parecia uma pequena caixa. Ao seu lado um rapaz, que saiu do meu campo de visão para sempre, já que não pude mais tirar os olhos da moça, linda, linda, linda. (Minha insistência nessa única palavra substitui inúteis descrições minuciosas que já li em tanta literatura de segunda.)
Percebi com vaga inquietação que ela também me olhava fixamente. E então fez um gesto. O gesto, para o qual fazia uso das duas mãos delicadamente erguidas na altura do rosto, simulava alguém enrolando uma carretilha, alguém girando uma pequena manivela. Sou um homem de cinema e imediatamente reconheci o gesto. Indicava um filme rodando, uma câmera em funcionamento. Logo depois me dirigiu outro gesto. Com o indicador da mão direita fez um sinal negativo, de não. Algo que eu não devia fazer. E, rapidamente, com o mesmo dedo indicador mostrou algo à minha esquerda. Claro como água: não deveria olhar para a esquerda, vale dizer, não deveria olhar para a câmera, primeira recomendação que extras e figurantes recebem num set de filmagem. Concluí que uma filmagem transcorria num carro à minha esquerda. A câmera devia estar enquadrando o motorista desse carro e talvez alguém ao seu lado. De qualquer maneira, meu carro, e eu próprio, deveríamos estar no campo de visão da câmera através da janela do passageiro, de modo que qualquer ação inadequada que eu fizesse poderia prejudicar a filmagem.
Obedeci às instruções, paralisado pela moça. Pensei impressioná-la com um gesto que a surpreendesse pela elegância e naturalidade, revelando-lhe talvez muito do que eu sabia do ofício em que ela estava evidentemente se iniciando. Não fiz nada. A linda criatura da camionete, então, sorriu. Seu sorriso me trespassou. Parecia me agradecer a compreensão e boa vontade. Pensei em retribuir o sorriso, mas nem isso fiz. Naquela hora da manhã, o sol ainda baixo, seu rosto entrava e saía da luz, conforme a camionete passava pelos intervalos entre um prédio e outro. Sua imagem oscilando entre luz e sombra parecia me oferecer, e ao mesmo tempo me negar, tanta beleza e juventude.
Ela fez mais um sinal com as duas mãos abertas, pedindo calma. A camionete diminuiu a marcha diante de um sinal fechado. Ela mantinha o mesmo gesto me advertindo que a filmagem continuava. Devia ser uma cena longa, talvez um diálogo. Quem estaria ao meu lado, no outro carro? Talvez um ator, um velho amigo, por que não? Com o rabo dos olhos pensei ver a parte anterior de um carro que me pareceu vermelho. Continuei minha atuação convincente, como a que tantas vezes pedira a meus figurantes.
O sinal abriu, a camionete começou a acelerar. A garota, então, desfez o gesto e sorrindo me lançou um beijo. Depois outro, longo, com o mesmo sorriso. E de repente me ocorreu que poderia ter me enganado. Que era apenas uma mulher que fazia sinais para um homem. De repente pensei que tinha perdido uma oportunidade, última, talvez, que uma linda mulher me oferecia. Pode ser que os sinais que tinha recebido não quisessem significar filmagem alguma e que minha interpretação se devesse apenas a uma deformação profissional, ou uma certa descrença em minhas possibilidades que vem crescendo ultimamente. Talvez eu tivesse entendido tudo errado.
Mas, antes que pudesse fazer qualquer gesto em sua direção, antes que pudesse, desesperado, tentar reparar meu possível erro, a camionete fez uma brusca curva na direção de uma rua à direita e ainda consegui ver a jovem me acenando, agora em pé na caçamba, aliviada pela conclusão de sua tarefa, ou como se -quem sabe?- também quisesse me dizer alguma coisa importante. Camionete e moça sumiram entre prédios e trânsito. Eu continuei pela Radial Leste, não sem antes, livre da proibição, olhar à minha esquerda: não havia nada.

19 de nov. de 2011

Sonhos da MEL

MEL é cabelereira.
MEL trabalha em um Salão de Beleza popular no centro de São Paulo.
MEL é descendente de índios, nasceu em Roraima e cresceu no Amazonas.
MEL usa aplique de cabelo loiro alisado e muitos que passam pelo vidro do salão dão uma olhada, ou grandes olhadas e se vão.
MEL vai participar de um concurso nacional de beleza em dezembro.
MEL quer representar seus amados estados "natais" e se tornar conhecida, afinal o Pânico na TV e principalmente a BAND, que costuma transmitir o início e o fim do concurso, estarão lá!
MEL imagina estar presente no Miss Mundo! Já pensou?!
A amiga da MEL disse que quer ir no lugar chique, mas pediu para MEL tomar cuidado, pois ela pode pagar maior mico se ficar em último lugar. MEL e todos em volta riem!
MEL diz que não vai responder a perguntas pessoais quando for entrevistada. Ela só vai falar do Salão onde trabalha.
MEL quer aproveitar a fama para trazer muitos clientes e quem sabe cobrar R$50,00 o corte e não apenas R$10,00?!?!
MEL quer vencer na vida como todos nós trabalhadores.
MEL é transexual.


Meu texto é uma homenagem a essa trabalhadora que ouvi falando no salão de cabeleireiro onde cortei meu cabelo agora a tarde por R$10,00! 


Mão de vaca, sim, eu sou!

Grandes guerras e as guerras diárias me PARALIZAM!

Me sinto como que saindo de uma guerra. Ou melhor, saio de uma batalha e continuo na guerra cotidiana da vida. Balas passam por minha cabeça e por meu coração. Balas saem do gatilho em minhas mãos, da minha boca e também da minha mente, se é que algumas não são atiradas veementemente do coração!

Mas não voltei aqui para escrever poesia.... mas quem disse que poesia é inútil (questão para um post único 1).

Vou falar sobre música. Sobre música e letra, na verdade.

Depois de uma amiga compartilhar uma canção antiga de uma banda cristã americana, não sei por que, me lembrei de uma outra canção de outra banda mais ou menos cristã. A primeira banda é o Third Day, a segunda é o Sixpence None the Richer.

O Sixpence é mais conhecido por aquela canção pegajosa chamada Kiss Me que acabou sendo colocada em uma porção de filmes e virou hit no rádio e também na MTV. Primeiro, tenho que admitir que em uma época cheia de romance no coração (um tiro chegou lá e o despedaçou várias vezes já), fui em uma loja e.... comprei o CD! Ouvi-lo foi surpreendente! Havia muito mais que Kiss Me lá! E claro, para começar, o que me chamou a atenção como de costume foram as guitarras do Matt Slocum!

Óbvio que comecei a acompanhar a carreira do grupo e acabei me esquecendo do Sixpence. Há pouco mais de 2 anos voltei à carga e baixei mais dois CDs deles (o melhor trabalho da carreira deles é o Divine Discontent!).

Em um destes CDs havia uma canção denominada PARALYZED. Como de costume, durante muito tempo me preocupei apenas em ouvir a música porque nela há um dos melhores riffs de guitarra que conheço, mas é fundamental ouvir o que a bela voz da Leigh Nash canta. Eis que ao atentar para a letra vemos um líbelo contra a guerra. Especificamente sobre a guerra do Kozovo, mas basta pensarmos um pouco e nos lembrar quantas guerras acometem a humanidade neste momento para imaginar quanto sangue derramado há nos campos do mundo. Quantos mortos. E quantos bebês já chorando no útero de suas mães.

Não vou escrever mais nada, apenas compartilho a a letra em inglês, em português e o link para uma apresentação ao vivo da música no youtube.

I look out to the fields
Where blood is shed upon the ground 
I breathe in, breathe out 
Change the channel, mute the sound 
I take a match, a cigarette, and a walk to clear my head
My stomach reeling at the thought of all those human beings dead 


I breathe in, and breathe out 
And go to do an interview 
About a song, three minutes long 
I just need something to do. 
Especially when my dearest friend
Was sent to cover Kosovo 
His last assignment brought a bullet 
And now he's gone, he's gone 


Feels like I'm fiddling while Rome is burning down 


Should I lay my fiddle down, take a rifle from the ground?
I need the ghost to breathe a northern gale tonight 


'Cause I'm paralyzed, I'm paralyzed 


I packed his books up, left the office 
Went to tell the wife the news 
She fell in shock, the baby kicked, and shed a tear inside the womb 
I breathe in, I breathe out 
Soak the ground up with my eyes 
It's hard to say a healing word 
When your tongue is paralyzed 


Feels like I'm fiddling while Rome is burning down 


Should I lay my fiddle down, take a rifle from the ground?
I need the ghost to breathe a northern gale tonight 
'Cause I'm paralyzed, I'm paralyzed


Eu dou uma olhada nos campos

Onde sangue é derramado no chão
Eu inspiro e expiro
Mudo o canal, deixo o som mudo
Eu pego um fósforo, um cigarro e dou uma volta pra clarear a cabeça
Meu estômago está revirando de pensar em todos aqueles seres humanos mortos


Eu inspiro e expiro
E vou dar uma entrevista
Sobre uma música, duração de 3 minutos
Preciso fazer alguma coisa
Principalmente quando meu melhor amigo
Foi mandado pra cobrir a guerra do Kosovo
Em seu último trabalho levou uma bala
E agora ele se foi, se foi


Parece que estou me preocupando com besteira enquanto Roma está queimando


Devo deixar minhas besteiras de lado, tirar uma arma do chão?
Preciso do fantasma pra respirar, uma invasão do norte essa noite


Porque estou paralisada, estou paralisada


Peguei os livros dele, deixei o escritório
Fui contar as novidades pra esposa
Ela ficou em choque, o bebê chutou, e derramou uma lágrima dentro do útero


Eu inspiro, eu expiro
Sugo o chão pra cima com meus olhos
É difícil dizer uma palavra pra acalmar
Quando sua língua está paralisada
Parece que estou me preocupando com besteira enquanto Roma está queimando

Devo deixar minhas besteiras de lado, tirar uma arma do chão?
Preciso do fantasma pra respirar, uma invasão do norte essa noite


Porque estou paralisada, estou paralisada

12 de nov. de 2011

USP x Extrema Esquerda x Riquinhos x Pobres x Invasão

Talvez o melhor texto sobre os últimos fatos ocorridos na USP.
Por sinal, estou entre os pobres que estudaram na USP. Há riquinhos, há, mas não são todos não.


ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
Calibre 12 no campus da USP
Ao contrário da percepção geral, não são maconheiros exigindo que a USP seja área liberada para Cannabis
Uma profunda ferida geracional foi tocada nesta semana. Quatrocentos PMs, com armamento pesado e até helicóptero, entraram no campus da USP, em São Paulo, para enfrentar 72 alunos desarmados.
A PM cumpria uma ordem judicial de reintegração de posse da reitoria da USP, invadida dias antes por esses alunos. O protesto estudantil foi motivado pela detenção, dentro do campus, de três universitários, no dia 27/10, pela mesma PM, por portarem maconha.
Não foi por acidente que, diante da ação militar, dois contemporâneos meus, André Forastieri e Marcelo Rubens Paiva, foram rapidamente à internet condenar a operação, cada um a seu estilo -Forastieri incendiário, Paiva mais ponderado.
Somos da geração que participou de outra invasão da reitoria, em 1982. E que estudou na USP durante a retomada do movimento estudantil, que havia sido sufocado no período mais duro da ditadura militar.
Ver uma ação policial tão agressiva, dentro da Cidade Universitária, não nos faz bem.
Como também é difícil engolir a tempestade de ofensas contra a USP, disparada nesta semana: antro de riquinhos mimados, filhinhos de papai que querem fumar sua maconha sem sofrer repressão.
O fato: há um enorme ressentimento, em parte da população, contra a USP. É a melhor universidade do país, está entre as 200 melhores do mundo, tem o vestibular mais difícil do Brasil (excluindo ITA e IME, escolas militares de engenharia).
Um monte de gente tenta entrar na USP, sem sucesso. Não é preciso ser a reencarnação de Freud para entender o mecanismo de defesa: "Se eu não passei na Fuvest, é porque não sou filhinho de papai, não estudei numa ótima escola particular: os riquinhos tomaram minha vaga".
Mas será que a USP é mesmo um antro de mimadinhos? Cursei duas faculdades ao mesmo tempo na universidade. Concluí ambas. Era um ambiente de glamour zero. Mais classe média, impossível.
Riquinhos? No Instituto de Química, dos 60 da minha turma, lembro só de uma loirinha toda chique, de sobrenome francês, que nunca me disse nem oi. E do herdeiro de um grande laboratório, pegador, gente boa, meu chapa. Só.
De resto, muita gente de escolas técnicas, vários da zona leste de São Paulo, pessoal simples do interior, um evangélico fervoroso, e também muitos que, ainda na faculdade (que era de período integral) davam aulas à noite para ganhar um dinheiro.
Na faculdade de jornalismo, que cursei à noite, minha melhor amiga morava na Vila Formosa, também da zona leste paulistana, e só estudou em colégio público. Outra colega querida era de uma família simples do litoral paulista.
Segundo o site da Fuvest, 24,5% dos aprovados no ano passado fizeram o ensino médio só em escola pública (estadual, municipal ou federal). É muito menos do que os 69,8 % que estudaram só em particular. Mas, a meu ver, ainda assim muito longe de caracterizar a USP como um ninho de privilegiados.
Em renda familiar, a mesma Fuvest informa que a faixa mais comum, entre os aprovados, é de três a cinco salários mínimos (18,4%). O nível mais alto, acima de 20 salários mínimos, está em quarto lugar, com 13,7%.
Que fique claro: meu apreço por esse invasores da reitoria é nenhum.
Ao contrário da percepção geral, não são maconheiros exigindo que a USP seja declarada área liberada para Cannabis. Como mostrou reportagem de Laura Capriglione e Talita Bedinelli, domingo na Folha, são militantes de grupos de ultraesquerda, habitantes de uma franja tão extrema do espectro político que consideram "de direita" o PSOL e o PSTU.
Maconha, para eles, não é bandeira -foi só um pretexto para bagunçar. Também sei que a representatividade desses invasores é zero. E que entraram na reitoria em desrespeito a uma decisão democrática, tomada em assembleia.
Mas vai uma grande distância entre rejeitar o embotamento ideológico dos invasores e achar que a USP é um valhala de filhinhos de papai, ou aplaudir uma operação militar tão gigantesca dentro de um campus universitário.
A foto de um policial apontando o que parece ser uma calibre 12 para o rosto de um estudante desarmado é uma nódoa na história do Estado de São Paulo. E um ponto baixo no currículo de todos os políticos que estudaram na USP, foram perseguidos pela ditadura militar e hoje aplaudem a ação da PM.

15 de out. de 2011

Lembranças da Aldeia de Barueri

Lembranças da Aldeia de Barueri: infância quase toda vivida em balcão de boteco familiar lembra mundo bizarro do filme Peixe Grande do TIM Burton, selecionei alguns dos personagens:

Bastião torto: velho que sofreu derrame e trabalhava como jardineiro.

Home do saco: andava pelo bairro carregando enorme saco de estopa, outro atemorizador de criancinhas.

Pirolau: o maior bêbado do pedaço. Em jogo da seleção tomou um belo de um tapa na fuça do meu pai e continuou rindo sem graça.

Bitelo: anão que quando via uma mulher bonita gritava: ô bitelo ou ô bitela!
 
Gentil: senhor de família que bebia até cair. Várias vezes teve que ser em carrinho de mão para casa, sem contar dias em que a água da chuva o levava até a calçada e ficava ali boiando semi-desmaiado de tanta cachaça!

Cá: negro forte que fazia serviços gerais, como carpir mato, servente de pedreiro em troca de garrafas de pinga. Morreu ao cair de caminhão da prefeitura.

Bodão: jovem vagabundo que estudou comigo. Me fez dar doces e salgados por um ano, ameaçando dizer para minha mãe que eu havia escrito uma cartinha erótica a uma colega de classe (eu tinha uns 12 anos a época).

Loira cega: mulher que uma vez por semana andava pelo bairro e tinha roupa puxada por crianças, que andando em volta dela faziam a festa.

Tiuill: bebum profissional cujo apelido era sinônimo de mentira.

Jacaré: homem que mexia a orelha para horror das crianças do bairro.

Djanira e Carlos: mulher que tinha muitos gatos e seu namorado que viviam bêbados, promovendo verdadeiros shows em praça pública quando brigavam.

A vida era muito divertida.
Ao mesmo tempo, a vida na periferia da periferia era marcada pelos sinais do preconceito, pobreza e vícios.